A Sociedade do Espetáculo, 1973. Direção: Guy Debord.

 

É uma estranha empresa, essa de fazer rir as pessoas de bem. 
– Molière 

 
        Uma piada precisará sempre encontrar seu eco no riso do outro, no riso de um grupo que assume uma cumplicidade. Em uma sociedade machista, um comentário misógino encontrará eco em diversos grupos. Trata-se do riso fácil, confortável, que não promove nenhuma ruptura, ao contrário, reafirma o poder de uns (sempre os mesmos) sobre outros (também sempre os mesmos). O mais curioso sobre o riso como manutenção da ordem é que ele é tratado como transgressão, como se a repetição do senso-comum, onde repousam os preconceitos mais antigos, tivesse qualquer possibilidade de transgredir.

        Essa forma de riso tem uma função social bem definida: estabelecer e reafirmar uma hierarquia entre o sujeito que ri e o objeto do riso. Quando Danilo Gentili rasga uma notificação extrajudicial enviada pela deputada Maria do Rosário, há uma tentativa de restabelecer as relações de poder que Rosário transgrediu ao se tornar deputada. A verdadeira transgressão não é colocar uma mulher na condição de risível, mas uma mulher se tornar deputada em um país em que a política institucional é um espaço majoritariamente masculino. A verdadeira transgressão é que “piadas”, antes naturalizadas, sejam contestadas e que suscitem um debate sobre o riso como ato político: do quê ou de quem você ri?

        Outro ponto de inversão do debate é recorrer ao princípio da liberdade de expressão para silenciar críticas, como se a liberdade de expressão servisse apenas para quem faz um discurso pretensamente humorístico e não para quem o critica. Patrulha ideológica, ditadura do politicamente correto, cerceamento da liberdade de expressão: todas essas expressões pretendem suspender o debate. Quem patrulha quem? Qual é a ditadura que se estabelece quando certos discursos são colocados acima da crítica e, até mesmo, da justiça?

        Não é possível desprezar a potência política do humor, ao dizer: “é só uma piada”. O humor, quando se estabelece no limite entre a arte e a vida, tem uma importante potência política para revelar e desestabilizar relações de poder. Mas o que ocorre com certo tipo de humor, que encontrou eco em certo discurso conservador, é justamente o contrário: reafirmar relações de poder. No caso de Gentili e Rosário, a “piada” pretende recolocar a deputada em um lugar de subalternidade ocupado pelas mulheres em nossa sociedade.

        O riso como forma de subalternização do outro já anuncia a função social do humor dentro de um discurso fascista, revelando, como coloca Baudelaire, a miséria existencial daquele que ri. 

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