O chocante atentado de domingo passado (dia 12 de Junho) em uma boate gay em Orlando, matando 49 pessoas à tiros, foi cometido por um homem chamado Omar Saddiqi Maaten, de origem afegã, foi não só estarrecedor e gerou medo como todo o ataque terrorista e covarde gera e esse é seu objetivo, mas revelou as contradições e disputas sociais que estão permeando a sociedade ocidental neste momento.

Primeiramente, o Ocidente está dominado por uma economia da decadência, ideia que é fomentada por diversos setores da sociedade politicamente à direita ou a esquerda (para ser bastante esquemático), desde o fim da Belle Epoque e da Primeira Guerra Mundial. Os esquerdistas enxergam a falência da sociedade por causa das diferenças sociais, dos preconceitos que nela existem e pelas injustiças nelas decorrentes do sistema socioeconômico capitalista que impede uma superação radical da realidade através de uma revolução, enquanto a direita vê com maus olhos a modernidade no porque ela destruiu uma ordem cosmológica hierarquizada “natural” baseada na ancestralidade.

Por isso mesmo, ambas as ideologias são revolucionárias. Antes de entender tal questão, devemos nos ater à etimologia da palavra “revolução”. Até o século XVIII era um termo astronômico que significava o movimento estelar onde o astro partia de um ponto, percorria seu caminho e voltava para o mesmo lugar. Depois disso, passou a significar ruptura completa do espaço-tempo, a aceleração da realidade para desfigurá-la e a partir daí, construir uma nova realidade A revolução da esquerda é a aceleração do tempo, rumo ao ineditismo, o novo, a ruptura completa com os paradigmas do passado para construir um homem novo, com forças humanas . A revolução da direita retoma basicamente o sentido original da palavra, que é o retorno a um mesmo ponto de partida. Ou seja, é uma ordem circular, onde o mundo deve ser regido por uma certa previsibilidade e mantido pelas tradições, e por uma regime de historicidade  considerado imutável. E essas diferenças do ponto de vista da revolução afetam a visão de decadência ocidental e sua superação. Para os esquerdistas, o atual cenário só será superado através de uma revolução aceleradora do tempo progressista e equalizadora da humanidade. Para a direita, pela recuperação de valores considerados imutáveis em uma ordem hierárquica que separa indivíduos por culturas, raça, orientação sexual e religião. Tais diferenças aparecem mais nitidamente em face ao outro.

O outro nesse caso é personificado pela figura do muçulmano. Figura com quem o Ocidente tem relações muito próximas e na maior parte do tempo não pacíficas desde o século VI, ele causa reações díspares, mesmo contraditórias, pois historicamente, o islâmico é visto como um ser diferente que é um risco à civilização ocidental, ao menos desde a Batalha de Poitiers em 732, quando Carlos Martel impediu a invasão dos adoradores de Alá ao reino Franco (atual França), intensificado nas Cruzadas no século XII. Não a toa que nos séculos XV-XVI tiveram expulsão de todos os maometanos dos reinos ibéricos e que os maiores inimigos da Espanha, a campeã do catolicismo e escolasticismo, até meados do século XVII fosse o Império Turco Otomano.

Esse muçulmano é enxergado pela esquerda dentro de sua categorização binária opressor-oprimido como um desfavorecido, que necessita de proteção contra a vilania ocidental. Esse muçulmano, por ser sempre uma nêmese à Europa e por seus países serem pobres e a sua religião ser opositora ao cristianismo, é visto como alguém a ser acolhido, pois o mundo revolucionário é dos desvalidos e desvalorizados socialmente pelo Ocidente. Pois no mundo progressista, o bode expiatório a ser imolado no altar da revolução-progressista é a burguesia e toda a tradição ocidental, que é o preço a ser pago pela construção de um futuro melhor. Nesse sentido, o terrorismo islâmico é apenas uma reação (justa na visão deles, mas não podem vocalizar isso abertamente sempre). Para a direita, é a representação perfeita do Anti-Cristo porque ele nega os valores basilares do cristianismo. O judeu não mais representa tal ser porque o trauma do Holocausto perpetrado pelos nazistas e a formação do Estado Judeu de Israel em 1948, com bases e valores ocidentais, assimilou o israelita ao mundo ocidental após quase 1000 anos de perseguições e massacres constantes que esse povo sofreu na Europa. Da dupla, o islã permanece no imaginário como o inimigo a ser derrotado para salvar a “civilização ocidental”, e se deve expulsar, e mesmo eliminar, a religião muçulmana (e seus praticantes) por serem ameaças, e para isso, se deve eliminar o progressismo que abre as portas ao inimigo, e o islamismo, e para isso, deve se fazer a revolução para restaurar uma ordem cosmológica cristã e hierárquica tradicional.

Essas duas visões não conseguem tocar na questão de fundo porque são respostas ideológicas, calcadas em uma visão cosmogônica já pré-determinada, e com uma visão de futuro já teleológico e antecipado do que deve acontecer. Portanto, ordenam os fatos de acordo com as suas preferências ideológicas para poder lhes adequar na construção de suas narrativas, e descartam ou tornam secundários aqueles que podem contradizer o que dizem. A esquerda trata do assunto como um mero ataque homofóbico, pois o indivíduo frequentava a balada gay onde realizou os ataques e possuía aplicativo de encontros entre homens, e por o terrorista ter tido uma esposa, era certamente um enrustido – o que comprova que todo enrustido é um homofóbico – e ajuda a servir como propaganda em prol do desarmamento. A direita, por sua vez, foca no fato de o assassino ser islâmico – o que prova que todo o islâmico é uma ameaça e devem ser extirpados da comunidade – e o fato de inicialmente ser noticiado que o Estado Islâmico assumiu a autoria do atentado animou ainda mais a militância de direita em suas diatribes contra os que seguem o islã, pois enquanto convivermos com eles, estaremos todos em perigo. Loas à suposta superioridade intrínseca do cristianismo foram feitas, pois seria uma religião tolerante com os gays. O atentado comprova: o islã é uma ameaça, portanto, devemos expulsá-los para preservar a civilização Ocidental e retomar os valores cristãos para combater o inimigo.

Só que nessas narrativas, as ausências falam mais do que as palavras proferidas. Primeiramente, se o terrorista possuía aplicativo de encontros gay e frequentava a boate, não é certo que era gay enrustido. Poderia apenas estar investigando o seu alvo para melhor atacá-lo. Segundo, o fator de ele ser islâmico  é fundamental na questão, pois a religião muçulmana é machista, repressora das mulheres e extremamente homofóbica, condenando a morte os gays onde vigora as suas leis. Porém, a esquerda de modo geral ignora os já denunciados machismo e homofobia do islamismo, pois é politicamente incorreto tocar nessa questão. Citar a explosão de casos de estupros e abusos contra a mulher nos bairros europeus onde há maioria islâmica é visto como “islamofobia”. Buscar fazer com que respeitem as leis e as liberdades do país para onde imigraram e não tentem implementar a Sharia (lei islâmica) nos bairros onde são maioria é tido como preconceito, pois “devemos respeitar a cultura deles”, enquanto eles não tem obrigação de fazer o mesmo com o Ocidente.Falar em controle de imigração por questões de segurança contra o terror soa como “repressão” aos esquerdistas.

Enquanto para a direita, todos os islâmicos são uma ameaça real e devem ser reprimidos ou expulsos, a utilizam do terror para propagar tal visão dualista entre Ocidente bom e muçulmanos maus, é que devemos elimina-los para que nossa civilização triunfe, adaptando o conceito de guerra de raças raças uma guerra cultural, onde a hierarquia está definida, assim como o objeto a ser destruído. Porém, se “esquecem” de que diversos muçulmanos vivem nos países europeus e nos EUA e que a esmagadora maioria deles nunca foram ameaça, são pacíficos e assimilados à cultura local, exercendo diversas funções na cadeia produtiva. E a questão da possível homofobia do autor do crime foi considerada irrelevante, pois o foco era deslegitimar a origem dele como se fosse uma mácula que o condicionava a ser mal por natureza, tanto que ignoraram o fato de que a negativa de o atirador ser parte do Estado Islâmico foi ignorada, tentando de todas as formas liga-lo a esse grupo. Porém, não falam de Joseph Ibrahim, médico que assim como o terrorista Omar Mateen, é muçulmano e filho de imigrantes. Esse médico foi o que salvou o maior número de vidas das vítimas do atentado. Mas esse muçulmano serve como exemplo para a guerra de raças e cultural da direita. Não serve para usar de exemplo para demonizar e caracterizar todo um povo e religião de ser um Anti-Cristo.

O atentado também serviu aos conservadores para mascarar a própria homofobia existente em sua ideologia. Os gays também são uma espécie de “outro” para eles, pois ameaçam a “civilização Ocidental” por contestaram a ordem cosmologica religiosa da tradição heteronormativa, e não raro conservadores fazem discursos discriminatórios em relação aos homossexuais, principalmente quando vinculados à religião cristã, que agora dizem não ser homofobicos, pois não matam como os islâmicos. Mas seletivamente se “esquecem” de que até meados do século XX, em nome de valores religiosos, a homossexualidade era perseguida e proibida, sendo mesmo até o século XIX em Portugal crime passível de morte e somente considerado menor em gravidade do que a traição ao rei, e em 1952, Alan Turing, cientista inglês que criou o computador, sofreu a punição da castração química por ser homossexual . O que faz com que os gays não sejam amplamente perseguido por cristãos igual fazem no mundo islâmico não é alguma vantagem doutrinária ou suposta benevolência, sim a vitoria do secularismo humanista que emerge no século XV e começa a vencer a religião e a tradição no século XVIII com o movimento iluminista,o que permitiu a contestação de uma ordem pré-existente, possibilitando a participação gradual de novos sujeitos até então como as mulheres, gays e negros. Movimento secularista e humanista que não teve vitória dentro das areas islâmicas, acontecendo o inverso, o fortalecimento da tradição religiosa contra a modernização ocidental.

O que se discute de todos os lados são arquétipos das vítimas, e procurando formas de instrumentalizar o fato à ideologia, não o oposto. Agindo dessa forma e não tratando as vítimas, com as quais devemos primeiramente nos consternar com o ocorrido, como individuos em suas particularidades e sim como corpos que podem ser usados para justificar as suas teorias e visões de mundo, em sua falta de empatia pelo outro estão a massacrar os mortos da boate em Orlando por uma segunda vez.

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