Na sala de cinema a projeção começa com gritos efusivos da plateia de ”Fora Temer” (repetidos também no final), e de Globo Golpista. Para além das polêmicas geradas pelo filme e o justo protesto dos atores em Cannes, mais do que aquilo que o filme narra, o que chama atenção em Aquarius é o modo como isso é feito, como a narrativa cinematográfica se constrói através de tempos e silêncios precisos.

A trama é relativamente simples, mas recheada de detalhes, sutilezas e uma temporalidade que fazem de Kleber Mendonça Filho um mestre da narrativa, da arte de contar histórias e envolver quem as vê e escuta: Clara, personagem encenada de modo brilhante por Sônia Braga, mora em um belo apartamento de dois andares à beira da praia de Boa Viagem, em Recife, onde leva uma vida tranquila sozinha, com constantes passeios à praia e amizade com o salva-vidas local. De um modo não linear, entendemos então que uma construtora vem comprando todos os apartamentos, e que deseja construir o Novo Aquarius, um prédio de luxo com segurança e câmeras 24h. Clara decide não ceder e não sair, mesmo diante das ameaças que enfrenta.

A densidade com a que a personagem é construída consiste, seguramente, no ponto forte do filme. Mas nele nada se apresenta exatamente como aquilo que parece estar sendo mostrado; o tempo e os silêncios nos permitindo entrar com tudo na vida de Clara. Não um tempo do consumo da imagem, rápido e direto, mas a complexidade da trama e de uma personagem cheia de idiossincrasias e singularidades: uma mulher ao redor dos seus 60 anos, tendo enfrentado um câncer de mama quando jovem, ela nos é apresentada pouco a pouco, como que montando um quebra-cabeças a partir de cenas de sua juventude, de seu dia a dia algo ocioso, e de certos fantasmas. O seu poder de decisão e de não se submeter aos ditames de um tempo avesso ao seu. Junto a isso, as contradições da posição de classe que ocupa e as relações com a empregada doméstica ”já da família”; as recordações e presenças do câncer de mama que vencera; o dia a dia de uma mulher determinada, viúva e jornalista bem-sucedida aposentada; o sexo; a nada clara relação com o seu sobrinho.

Com diversos momentos de humor compondo o drama, o conflito com a empreiteira toma dimensões inesperadas, que a arte de contar histórias de Kleber Mendonça Filho em sua parceria com Sônia Braga nos torna cúmplices intrigados

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