Dos livros lançados em 2016 por autores brasileiros, certamente o que mais me chamou  atenção foi ” O Tribunal da Quinta-feira” de Michel Laub. Além do texto claro e dos recursos de linguagem que tornam o  agradável de se ler, o escritor gaúcho toca em feridas muito atuais: a dificuldade de se colocar no lugar do outro e a fábrica dos juízos de valor em que se tornaram as redes sociais.

Para não estragar o prazer de quem pretende se aventurar nesta leitura, pincelo por aqui alguns pontos da obra. Dois amigos trocam confissões por e-mail, a maioria delas sobre sexo, casamento e traição. Na privacidade de suas caixas de correio fazem piadas ofensivas, muitas delas recheadas de humor negro e escatologia. O mundo dos dois cai quando a ex-mulher de um deles descobre as conversas, faz cópias e distribui para um grupo de amigos. A partir daí a vida dos envolvidos, direta e indiretamente, vira um espetáculo de linchamento virtual. Preconceitos que o senso comum sempre alimentou ganham vazão em posts dos mais diversos padrões. Intolerância e ódio, hipocrisia e falso puritanismo. Ingredientes de uma narrativa que ainda traça uma bela linha do tempo sobre a epidemia de AIDS nos anos 80.

A leitura desse livro, agora no comecinho do ano, me trouxe imediatamente uma reflexão sobre o que vivemos nesse novo ciclo na prefeitura de São Paulo. Depois de uma campanha recheada de lugares comuns, forte apelo populista e uma vitória acachapante; o empresário João Doria começou de fato seu mandato.

Ainda sob a égide do discurso de negação à política e disposto a fortalecer o rótulo de gestor, Doria força a mão no marketing e em ações simbólicas para conquistar de vez a confiança daqueles que votaram nele. Se vestiu de gari para varrer as calçadas e reforçar o compromisso de deixar a cidade limpa. Encampou  a batalha contra grafiteiros e pichadores(ou pixadores como eles mesmo escrevem), também vestido a caráter, pintando de cinza muros que antes recebiam manifestações culturais de patamares variados. Também andou de cadeira de rodas para sentir na pele as dificuldades de acessibilidade que pessoas com deficiência são obrigadas  a lidar na selva de pedra.  Tudo ao melhor estilo  “gente como a gente”.

Fora isso, segue batendo recorde de aparições em emissoras de TV e rádio,  além de ser figurinha carimbada em manchetes de portais e jornais. Obcecado pela exposição midiática, “João Trabalhador” alimenta nas redes sociais uma verdadeira batalha entre defensores e críticos. E é sobre a parcela da população que não gosta do tucano que eu quero falar.

Não há dúvidas de  que a gestão Fernando Haddad agradou muito o chamado “eleitorado progressista”. A política de mobilidade urbana, com ênfase  ao transporte público, ciclovias e  redução de velocidade em vias importantes, rendeu boas avaliações de orgãos internacionais e uma certa idolatria daqueles que valorizam esse tipo de medida.

Fora isso, aprovou um plano-diretor que recebeu o reconhecimento da ONU e se tornou um marco importante para a cidade. Na economia, liderou a batalha pela renegociação das dívidas dos municípios com a união. A vitória nessa empreitada resultou na queda da dívida paulistana de 74 bilhões de reais para 27 bi e meio. A recuperação judicial de dinheiro desviado em outras gestões também foi um mérito de Haddad.

Enfim, é preciso reconhecer as virtudes de um governo que optou por uma gestão diferente das que a antecederam, seguindo um modelo que a média da população não está acostumada. Apesar disso, não dá pra ignorar o recado das urnas. Ninguém com uma administração impecável é capaz de perder uma eleição de maneira tão vexatória. E eu não consigo atribuir isso só ao anti-petismo ou ao conservadorismo do paulistano. Haddad perdeu na periferia, onde nem só de simbolismos se pode governar. Se suas qualidades não foram reconhecidas por pessoas tão carentes de atenção, provavelmente alguma coisa está errada. Talvez a tal universalidade da administração tenha ficado mais no discurso do que na prática. Não dá pra cravar, mas não é difícil enxergar razoáveis fragilidades no modus operandi e nos seus reflexos eleitorais.

E é nisso que eu quero me concentrar, aproveitando para conectar esse raciocínio com o livro que citei no começo do texto. O novo governo tem pouco mais de vinte dias e, bem como quando Dória venceu as eleições, muitas pessoas que preferem Haddad passaram a inundar as redes com discursos agressivos e precipitados, repletos de ironias quanto à inteligência e ao caráter de quem gosta das medidas de João Dória.

Algo muito parecido com o que se acostumaram a fazer os críticos de governos petistas ou da tão estereotipada “esquerda”. É o que me incomodava lá, incomoda aqui também. Não faz sentido fazer juízo de valor o tempo inteiro e ignorar a representatividade de quem conquistou no processo democrático o direito de comandar a maior cidade da América do Sul. Fazer oposição é sempre saudável, mas ela precisa ser mais do que insultos na internet. Cidadania também passa por enxergar o outro como semelhante e não apenas como estranho.  É preciso conviver com o contraditório para que algo de construtivo nasça da discordância de visões de mundo. Do contrário, tudo não vai passar de um tribunal de julgamentos superficiais e asquerosos.

 

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