Esta semana começou com as imagens da prisão do ex-senador Eduardo Suplicy durante a ação da PM para reintegração de posse de um terreno no Jardim Arpoador. Ou a semana teria começado com a reintegração de posse no Jardim Arpoador, simplesmente? Pois, para além das reações que esquerda e direita manifestaram, suas esperadas objeções e legitimações à ação da Polícia Militar e à atitude de Suplicy, esquecemos que a prisão “extraordinária” do ex-senador se dá num pano de fundo bem mais “ordinário”, bárbaro e cotidiano de destruição sistemática de casas das populações mais pobres.

Enquanto Suplicy virava meme por sua postura – no mais justa e corajosa –, a favela Alba, no Grajaú, se tornava a 100ª favela a ser incendiada somente neste ano. Considerando que estamos lá pelo 200º dia do ano, nossa conta dá o número surpreendente de um incêndio a cada dois dias.

Quem já visitou o projeto online Fogo no Barraco, teve a oportunidade de ver o assustador mapa que associa a frequência e gravidade de incêndios na região metropolitana de São Paulo com a construção de novos prédios. Ainda não me caiu nas mãos um projeto semelhante que associe a as ações da PM em reintegrações de posse (frequência e intensidade da truculência) com a construção de edifícios de classe média e alto padrão em antigos terrenos de comunidades pobres. Mas quando alguém se der ao cuidadoso trabalho de fazê-lo, o resultado não será outro: no mapa, onde houver um cassetete, vai haver um prédiozinho do lado.

Todos nós sabemos que esses incêndios não são acidentais em sua esmagadora maioria. No limite, eles cumprem a mesma função que a polícia militar em reintegrações de posse: abrir caminho a ferro e fogo entre a casa das pessoas para o livre uso desses terrenos em empreendimentos imobiliários, especulação, etc.

Para a mídia tradicional, que tira seu combustível de sensacionalismo barato, os incêndios são instrumentalizados mais facilmente. Quando veem um trabalhador rústico, por volta de seus 40 anos chorar desesperadamente a morte de um filho ou sobrinho, uma Band, Record ou Globo não conseguem resistir ao sentimento de tragicidade resignada, como se Deus tivesse incendiado a favela Alba ou Vila Maria da mesma forma que incendiou Sodoma e Gomorra.

Por outro lado, é muito mais difícil para o César Tralli estragar o almoço de todos com imagens de tratores passando por cima daquilo que, por décadas, foi chamado de “casa” por uma centena de famílias pobres. Um senhor de 75 anos sendo carregado à força pelas mangas de seu terno pode ser um “oportunista”, “um herói”, “um senil”, “um bravo e honrado político”. De um jeito ou de outro, é comovente ver alguém como ele naquela situação insólita: um famoso político branco e idoso, nas mãos de PMs… Independente da posição política do espectador, a coragem ou oportunismo políticos de Suplicy residem no estranhamento das imagens. “Não era” para ele estar ali.

Já aquelas famílias pobres chorando seus lares, fazendo barricadas, apanhando do Estado e juntando seus pertences, estas sim estão exatamente onde se espera que estejam: estão fora dali. Eis o cinismo máximo: esquecê-las (em memes, no SPTV, na Folha) faz parte do show do qual justamente elas são as maiores vítimas.

Parafraseando as palavras de J. D. Salinger sobre os prisioneiros no corredor da morte nos EUA, elas são man-forsaken men: pessoas abandonadas pelas pessoas.

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