Obviamente, não há nenhuma “ditatura do politicamente correto”. É interessante que aqueles mesmos que apontam para esse suposto fenômeno (pois algo aconteceu e eles percebem que algo aconteceu) não atentem para uma série de outros fatos correlatos. É evidente que toda uma gama de discursos que décadas atrás era tranquilamente vertida sobre o público, não é bem-vinda hoje em dia. Mas dentre os fatos correlatos que esquecemos com frequência, é preciso apontar para dois que me parecem fundamentais: 1) a disponibilidade de plataformas que possibilitem que a contrapartida interessada no discurso “incorreto” recorra e clame seus direitos a dignidade e 2) uma ampla mudança de sensibilidade que nada tem de “ditatorial”, mas que sim, indica uma tomada de posição política mais às claras. Esses dois aspectos, me parece, podem nos levar à questão central sobre uma ética do debate.

            O termo “politicamente correto” entrou amplamente em uso durante a Guerra Fria, como uma forma de designar a adequação do discurso geral da sociedade às demandas das instâncias políticas oficiais. O “politicamente correto” não é somente correto pois se antepõe ao que é “errado”: ele é “corrigido” no sentido mais ditatorial do termo. Um discurso corrigido é retificado por uma força externa que exige que tal opinião prévia seja modificada nos moldes da opinião aceita sob a ameaça de sanção.

            É isso que vemos hoje? A não ser que você viva uma paranoia orwelliana ou acredite – como nossos manifestantes verde-amarelos – que vivemos sob um regime comunista, irá concordar comigo que há muito exagero aqui.

            Hoje em dia não é mais fácil falar o que quiser contra ou sobre quem quiser. Há algumas décadas, uma série de discursos podia passar goela abaixo da opinião pública geral sem se preocupar tanto com a reação dos descontentes (que são os mais interessados!) pelo motivo de que estes não tinham plataformas satisfatoriamente relevantes para dar voz a sua reação. Em outro texto à mesma The Global P., eu dizia que as redes sociais e todo o circuito de ferramentas em torno delas abriram, sem dúvidas, novas frentes para novos autores, deslocando do eixo impresso-televisivo para o virtual a forma primordial de troca de opiniões. Essas novas plataformas potencializam uma relação mais ativa com a opinião: todos os espaços de publicação se tornam um fórum em potencial.

            Considerando que a paranoia persecutória politicamente incorreta se volta, na grande maioria dos casos, contra o tripé negros-mulheres-gays, não teremos dificuldades em ver que são precisamente esses grupos que encontraram nas modernas redes sociais formas de demonstrar indignação. Fazer-se ouvir agora é difícil, ma non troppo.

            Em outro sentido (e nesse aspecto posso estar mais errado do que nos outros), as reações aos discursos politicamente incorretos deixam transparecer a impressão de que há mais gente reagindo do que antes. Um exemplo disso é a presença sempre mais marcante de opiniões e manifestações feministas, nas ruas ou nas redes sociais. Quem convive com adolescentes, dificilmente deixará de notar que há, entre eles, uma sensibilidade política acentuadamente maior do que na época em que nós mesmos éramos adolescentes.

            Mas isso tudo são apenas impressões e, no Brasil, esse debate ainda é muito recente. Tal prematuridade do debate é ilustrada pela incapacidade de muitos em diferenciar liberdade de opinião e discurso de ódio, correção política e tomada de posição. Até porque, em nosso país, lugar de negro nunca foi o de debatedor no living room da Casa-Grande. Para além das paranoias persecutórias tão carregadas de cinismo, o que podemos esperar de todo esse debate é que ele nos leve ao cerne da questão ética que se desdobra a saber: um sistema de opinião pública realmente maduro não é aquele que limita as opiniões que devem circular, mas sim aquele que dá às pessoas interessadas e sensatas a possibilidade ridicularizarem os excessos fascistóides.

            Uma liberdade de discurso que se pretenda realmente consolidada é aquela que encara com seriedade não só a possibilidade de dizer o que quer, mas que assuma as consequências éticas que isso implica.

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