Nossa política não deveria ser como uma final de campeonato mata mata. O ideal seria vê-la como um torneio de pontos corridos.

Ser campeão nos pontos corridos é resultado de uma boa campanha, de um trabalho bem feito, atuações regulares. Mas, quando seu time está em um campeonato mata mata, o sentimento é outro. É adrenalina pura nos 90 minutos. É tudo ou nada, ou ganha o jogo ou está fora. E dói muito ser eliminado ali, nas quartas de final do campeonato mais importante do ano.

Pior do que ser eliminado em um mata mata é ver essa derrota para aquele que é o maior rival. A dor principal não é a da eliminação, mas do presságio de como será o dia seguinte, ao encontrar os amigos torcedores do time adversário. As piadas e zoações serão inevitáveis.

Desde 2014 o Brasil vive em um campeonato mata mata. Naquele momento, PT e PSDB lutavam por um acesso a série A da política nacional. Como toda disputa verdadeiramente emocionante, a decisão foi para o pênaltis e só descobrimos quem governaria o país na última cobrança. Desde que o Brasil entrou na era democrática não se via uma vitória tão apertada para o cargo mais alto do poder executivo.

Desde este momento, a população está dividida como paulistanos em uma final entre Palmeiras e Corinthians. No entanto, parece fazer mais sentido todos torcerem pelo mesmo objetivo: que o Brasil seja presidido da melhor maneira possível. Infelizmente, parece que torcer virou o foco principal da população na disputa política. Pouco importa se os planos econômicos de um dos candidatos for ruim ou se não há políticas públicas importantes entre a proposta do outro. O que vale é torcer.

Cada lado tem seu uniforme. Um copia a seleção brasileira (o que não me parece muito inteligente, visto que os últimos resultados da equipe não foram positivos nos últimos tempos), enquanto o outro lado usa vermelho.

O lado de verde e amarelo levou a melhor no jogo de ida da final do campeonato do impeachment, quando a Câmara dos Deputados aprovou que o processo fosse levado para o Senado.

No dia seguinte, o retrato era igual ao encontro de crianças na escola: torcedores do time vencedor apontando o dedo na cara dos torcedores e para dizer “o choro é livre”.

Não importa se um time ganhou roubando, se aquele pênalti não foi marcado ou se, quando fez o gol, aquele centroavante estava impedido. O resultado final é o suficiente para ofender alguém nas redes sociais ou xingar um torcedor vestindo a camisa do seu time na rua.

Parece que algo tão importante quanto a escolha de quem será presidente do país em alguns meses virou algo tão insignificante para os rumos do mundo quanto um jogo de um campeonato mata mata.

O que será que importa mais: ter razão e poder zoar o amigo OU esperar que as decisões tomadas para o país sejam as melhores para que TODOS os cidadãos tenham uma vida digna?

Na sequencia de derrotas do time do PT e de Dilma, parece que mais uma está a caminho. Dia 11, a nova votação acontecerá e pode ser que, no segundo jogo da final, o time de vermelho perca a taça.

Independente do resultado final, o que resta pensar é: será que a política nacional deveria ser tratada como um campeonato mata mata, no qual um lance injusto pode mudar todo o jogo, ou seria melhor prezar pelos pontos corridos, quando a campanha justifica o resultado e uma boa estratégia de jogo define o campeão?

O técnico do time verde e amarelo

Quem comanda o time verde e amarelo, atualmente, é o Vice-Presidente da República, Michel Temer. O PT ainda não foi eliminado, mas o pmdbista já começou a contratar reforços para a próxima temporada.

A escalação agrada a alguns, aos que preferem a técnica ao futebol arte, pode-se dizer. A intenção de Temer parece ser tudo o mais diferente possível das políticas que o PT diz serem as suas.

O que preocupa é quem será beneficiários das políticas implementadas pelo novo presidente: aparentemente, apenas os torcedores que podem pagar pelos caros ingressos nas sofisticadas arenas sairão ganhando.

Os menos afortunados, excluídos, marginalizados, devem ficar de fora de todo o show. Pode ser que, no âmbito econômico Temer dê de 7×1 no que Dilma fez nos últimos anos, mas a parte social do possível novo governo assusta.

Aécio parece estar feliz em poder transferir alguns de seus jogadores para a equipe do Vice-Presidente. Já é esperado que os dois partidos sejam aliados no novo governo. E como fica o povo ao saber que estarão lado a lado: o partido de Eduardo Cunha, com diversas suspeitas de corrupção, com o de Alckmin, que autoriza que policiais militares partam para cima de estudantes com tanta violência?

Em todo plano Temer para esse “novo Brasil”, onde entra a população pobre, os que precisam das cotas, do Bolsa Família, da merenda todo dia na escola?

Pode ser que o time comandado pelo Vice-Presidente vença o campeonato, mas não será bonito de ver, especialmente por saber que poucos que poderão assistir o jogo.

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