O Senado Federal decidiu nesta quinta-feira (12), democraticamente, afastar a presidente eleita pelo povo em outubro de 2014, Dilma Rousseff, por até 6 meses. Foram 54 favoráveis ao impeachment da presidente. Agora, uma sessão extraordinária no Senado, comandada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski, encerra o processo. Caso 54 senadores voltem a votar a favor do impeachment, Dilma é retirada definitivamente do cargo e fica inelegível por 8 anos. Se não, o processo é arquivado e a presidente eleita volta ao cargo.

Enquanto isso, Michel Temer, que, democraticamente, teria em torno de 1% das intenções de voto, assume interinamente a presidência da República. Como já era esperado, e como foi antecipado pelo The Global P., dos seus 23 ministros, não havia nenhuma mulher. Aliás, além de não ter nenhuma mulher, ele resolveu escolher todos os seus homens iguais: brancos, de ideologia neoliberal, sendo nenhum da classe indígena, negra ou trabalhadora. Mais: colocou em seu governo a oposição que foi derrotada nas urnas. São três homens do derrotado democraticamente PSDB ao seu lado. E não para por aí. Ele extinguiu Ministérios importantes como os da Cultura, Desenvolvimento Agrário e das Mulheres, da Igualdade Social e dos Direitos Humanos. Além de ter acabado com a CGU (Controladoria-Geral da União), responsável por investigar a corrupção.

Além disso, novos ministros são investigados pela Justiça, em tribunais de conta ou já foram até mesmo condenados. Eliseu Padilha (Casa Civil) foi acusado de estar envolvido em irregularidades no governo Fernando Henrique Cardoso. Romero Jucá (Planejamento), Geddel Vieira (Secretaria de Governo) e Henrique Eduardo Alves (Turismo), por exemplo, são investigados na Operação Lava Jato, da PF (Polícia Federal). Outros dois novos ministros são filhos de investigados na mesma operação: Helder Barbalho (Integração Nacional) e Fernando Coelho Filho (Minas e Energia). Respondem a inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), ainda, os ministros Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia e Comunicações), Maurício Quintella Lessa (Transportes) e Ricardo Barros (Saúde). O que Michel Temer tem a dizer? Afirmou não ver problemas em indicar homens investigados.

Vamos supor que eu tivesse trocado o nome de Michel Temer por Dilma ou por Lula nos três parágrafos acima. Qual seria o seu pensamento? E o da imprensa? Não é preciso muito para saber qual seria o pensamento da imprensa nacional. Quando o ex-presidente Lula foi nomeado Ministro da Casa Civil, em uma tentativa desesperada de Dilma para salvar seu governo, houve pressão midiática e do salvador da pátria Moro, para tirá-lo do governo. Investigado, o argumento é de que ele teria foro privilegiado. “Imoral! Antiético! Bandido!”. Agora, todos os nomes citados no terceiro parágrafo também terão foro privilegiado. Pouco importa. O PT foi tirado do poder e, agora, acordamos nesta sexta-feira-13 em um país sem corrupção. Silêncio. Mas silêncio aqui.

Fora do Brasil, grandes jornais, como o The New York Times e o The Intercept, dos Estados Unidos; o The Guardian, da Inglaterra; e o El País, da Espanha, citaram o impeachment da presidente Dilma como golpe branco. Golpe branco porque, apesar de seguir todos os processos jurídicos, faltou o mais grave: a comprovação de um crime comentido pela presidente eleita Dilma Rousseff. E aqui, os jornais conseguiram manipular até mesmo o que foi dito lá fora. Citaram que a notícia circulou, mas não se aprofundaram. Afinal, todos bateram de frente com o jornalismo (?) feito por aqui. Confira abaixo o que cada jornal destacou do impeachment da presidente:

– The New York Times
Para o maior jornal do mundo, Dilma está pagando um preço desproporcional. O jornal diz que não há evidências de que Dilma abusou do poder para ganho próprio e ainda relembra que, os que a retiraram do cargo, estão atrelados a esquemas de propina e outros escândalos. Isso foi escrito em um editorial. O jornal relembra que as chamadas pedaladas fiscais de que Dilma é acusada foram cometidas por governadores de vários Estados e, com eles, nada aconteceu. Ainda salienta que, com Michel Temer no poder, fica mais fácil o retorno da política de pagamento de propinas.

– The Intercept
Um dos editores e cofundadores de The Intercept, o jornalista Glenn Greenwald, vencedor em 2014 do prêmio Pulitzer por Serviço Público após a publicação de relatórios sobre vigilância dos governos dos EUA e do Reino Unido, assinou uma reportagem com Andrew Fishman e David Miranda afirmando que, simplesmente, o Brasil está passando por uma perigosa subversão da democracia. A reportagem ainda aponta semelhanças entre o golpe de 1964 e de 2016, relacionando que os apoiadores de 64 são os mesmos de agora: em classe política, ideológica e o quarto poder, que tem à frente, a maior emissora de televisão do Brasil.

– The Guardian
O jornal britânico The Guardian, que tem acompanhado de perto todo o processo de impeachment, e com bastante destaque no portal, pontua que os políticos de Brasília colocaram à frente dos 54 milhões de votos recebidos por Dilma, suspeitas não comprovadas de corrupção. O periódico dá destaque a quem disse que se tratava do “dia mais triste da jovem democracia do Brasil” e relembra que os envolvidos no golpe branco – esses sim – têm envolvimento em casos de corrupção. Alguns, de forma comprovada.

– El País
O jornal espanhol publicou um editorial que aponta a queda de Dilma como um abismo e afirma que “o processo de destituição de Dilma Rousseff não resolve nenhuma das crises do país”. O jornal realça que o impeachment deixa um país dividido politicamente, em lados conflitantes socialmente e imerso na pior crise econômica de sua história, além de uma crise moral à qual somente o proverbial otimismo dos brasileiros poderá dar solução.

Só em 2013, o jornal O Globo, que apoiou o golpe de 1964, afirmou que errou na escolha. Que ficou do lado errado. Agora, repete a posição, assim como toda grande imprensa do Brasil. Enquanto lá fora a imprensa pressiona e cobra, aqui, comemora e infla. É esperar quantos anos vão passar até um novo pedido de desculpas.

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