Escolha um lado! Não importa de que, apenas escolha, e escolha rápido! E se você não estiver comigo, então é meu inimigo! Assim entramos em uma era de engarrafamento, com muitos carros buzinando ao mesmo tempo e deixando a todos com uma enorme enxaqueca. Encontros familiares de domingo, intervalos de trabalho, noitadas no boteco… Não há espaço de convívio social hoje em dia em que as pessoas não estejam à flor da pele, com as línguas e gargantas coçando para gritar, xingar e insultar. Isso, obviamente, nos espaços onde existe o cara a cara, o olho no olho, pois na rede as gargantas não coçam: elas queimam.

Quando nos encontramos e dialogamos com outro ser humano, montamos uma série de filtros, temos todo um jogo de cintura, as regras de etiqueta nos impõe a necessidade de pensar no mínimo duas vezes as palavras que vamos usar com outro, tendo que levar em consideração o que o outro está dizendo para escolhê-las mais adequadamente (já dizia o pensador contemporâneo Mc Brinquedo: meça suas palavras, parça!). Não entrando na discussão se essas regras deveriam ser abolidas ou não, elas foram desenvolvidas tendo em vista as reações físicas, químicas e biológicas que sentimos ao contato próximo com outros seres humanos. Reações como calor trocado, pupilas dilatando, batimentos cardíacos acelerados, suor, tremedeira, bochechas coradas, entre tantas outras que não existem quando o diálogo é por detrás da tela do computador ou do celular. Sem os filtros, não precisamos mais ouvir e nem pensar no que falar, em como, quando e o quanto falar, apenas falamos. E em uma geração onde o meio digital suplanta cada vez mais o meio físico, a tendência extrapola o mundo virtual e chega ao mundo real, de uma forma muito semelhante ao mostrado na trilogia Matrix pelo vilão Agente Smith.



Se esta é uma doença social, ela não será tratada socialmente. Foi isso o que nos ensinou o fracasso do “politicamente correto”, onde a intolerância e as explorações sistêmicas como racismo, machismo e homofobia foram combatidas de uma vez só, e o resultado disso foi uma leva de pessoas fazendo sucesso repetindo essas mesmas ideias antiquadas e desumanas de sempre, só que com status de rebelde descolado que o “politicamente incorreto” lhes concedeu. Não: uma sociedade não muda de fora pra dentro, mas de dentro para fora. Como? As respostas para um problema complexo chegam a espantar de tão pateticamente simples.

Em primeiro lugar, da próxima vez em que discutir com alguém de opinião parcial ou inteiramente oposta a sua, tente imaginar o que levou a pessoa a ter aquela opinião, de onde ela a tirou, por que ela a defende. Depois, abaixe as armas e relaxe. Ninguém nunca foi convencido no grito, e não serei eu nem você quem conseguirá isso. Verá que é muito mais fácil convencer alguém quando você a compreende e lhe dá algum crédito. E por último, esqueça essa ideia de que precisa convencer a todos. Não precisamos, e essa é uma das coisas que dão significado ao conceito de liberdade e tornam a vida em sociedade rica e interessante. São atitudes simples, não fáceis, mas que qualquer um pode tomar. Não têm efeito imediato nem garantem recompensas, mas são contagiantes.

Tenha suas convicções, mas deixe-as eternamente em aberto para crescerem, diminuírem ou mesmo mudarem por completo. Enquanto a opinião divergente não fere o seu direito de existir, ela não é nossa inimiga. Dito isso, podemos parar com essas buzinas? O sinal já abriu!

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