Minha proposta pode ser entendida por diversos ângulos. Seja pelo apelo à uma participação política concreta, seja pelo puro e simples exercício de reflexão. Aqui não se faz uma proposta específica, uma estratégia claramente fundamentada. Não me faz sentido a ideia de propor algo já pronto, acabado. Pelo contrário, compreendo e trabalho o texto como uma tentativa de diálogo, e como já dito, uma proposta de reflexão, dentre tantas outras possíveis. Resguardo apenas a tentativa de se demonstrar um dos caminhos possíveis para a reflexão, e sobretudo, para ação política. Creio que assim, minha proposta se signifique pelo texto como um todo, pelas entrelinhas, em cada detalhe da escrita. Por isso, peço paciência ao leitor, e desde já, agradeço a leitura.

24/05/2017. Brasília. Dia de protesto. Após a exaustiva viagem, a primeira impressão que tive foi a respeito da própria cidade como um conjunto arquitetônico muito peculiar. A cidade fez sentir me pequeno, dada a distância entre um prédio e outro, o que me parece ser uma das principais características da mesma. Cada passo parecia ser pouco para se alcançar qualquer coisa. Irônico esta ser a capital de nosso país. Mas para os manifestantes isto serviu de lembrete de que o dia não seria fácil, o que não foi suficiente para abalar a atmosfera de possibilidade de mudança que permeava as multidões. Se grande era a distância entre um edifício e outro, quando apontava os olhos para o congresso, a possibilidade de experienciar a sensação de pequenez foi re-significada pela multidão a qual caminhava junto.

Muitos sotaques. Muitos sindicatos e movimentos. Havia também muitos manifestantes “espontâneos”, daqueles que não carregam bandeira alguma, apenas o corpo e a voz. Era quase impossível contar as massas. Nunca havia participado de um protesto daquela magnitude. Fiquei surpreso, espantado e até emocionado. Porém, características semelhantes podem ser atribuídas às forças de proteção do Estado presentes naquele momento. Mais do que policiais (apesar de serem muitos), o que vi e senti tratava-se de bombas de efeito moral. O “famoso” gás lacrimogêneo. Sem contar nos tiros com balas de borracha cujos disparos ouvi e tive a sorte de não ser alvo.

O conflito inicialmente se estendeu às proximidades do congresso, e aqui se faz necessário constatar algo. Embora numerosa, as massas não estavam articuladas taticamente do modo como as forças policiais o estavam. Nem todos os manifestantes se encontravam na “linha de frente”. Ainda, havia carros de som pedindo para que as marchas fizessem pausas durante o percurso ao congresso em decorrência dos conflitos que estavam ocorrendo.

Em determinado momento, os ataques aos ministérios começaram. E dentro do próprio conjunto dos manifestantes, naquele mesmo instante, podia se ouvir inúmeras opiniões em relação ao ataque. Alguns apoiavam, outros não. Tive grande impressão (porém, talvez errônea) de que os sindicatos foram os que mais estavam empenhados em se ausentar do ataque. Creio que era um modo de não manchar suas bandeiras, de preservá-las do ataque midiático, melhor dizendo.   

Eu mesmo tenho minhas dúvidas, embora carregue a certeza de que não consigo pensar no vandalismo em si, isoladamente daquele momento complexo, múltiplo e espontâneo. O que ele sinaliza? Descontentamento e raiva, obviamente. Mas também, a não articulação tática (e política) entre os manifestantes, movimentos e sindicatos. Todavia, compreendo como chega a ser utópico (no sentido comum do termo) a exigência de tal articulação, dada a proporção do fenômeno, assim como a sua organização multi regional, visto que haviam manifestantes de TODOS os lugares deste país. A massa talvez até seja uma unidade, mas nunca desprovida de contraditoriedade. Dito isto, não pretendo legitimar ou justificar a depredação, aliás, nem creio que seja cabível deslocar a reflexão para este campo intelectivo, entretanto seja perfeitamente explicável dado o “calor da situação”, desde que abrangido aquele calor imediato referente ao ato, somado ao do status-quo presente no Estado cujas consequências se espalham por todo o território. Creio que uma reflexão que se resuma apenas à moralidade não dê conta de abarcar o fenômeno, pois o mesmo foge da moralidade para corresponder ao escopo da pura e simples causalidade, dada a ilegitimidade presente não apenas no governo da presidência, mas em todas as esferas do Estado, o que inclui a presença da polícia no ato.

Quem esteve lá sabe. A polícia não mediu esforços em ferir manifestantes. Num país em que a palavra “democracia” surge repentinamente pela mídia, seu conceito caduca cada vez mais. O direito a manifestação negado. A repressão policial utilizada no sentido de neutralizar o protesto, diferentemente do que ouvi por aí, quando disseram que a mesma foi utilizada para neutralizar a depredação. Aliás, o fogo é um símbolo. Sinaliza a liberdade, e contraditoriamente costuma aparecer nos momentos em que esta é negada. Ainda, não consigo me esquecer dos policiais que atiraram com armas letais, desmedidamente e criminosamente após o ateamento, intensificando ainda mais a repressão. É claro, o único conceito que neste país não caduca nunca, infelizmente é o de “bala perdida”.

Com o passar do tempo, os conflitos que se resumiam às proximidades do Congresso se dispersaram por uma área bem maior. Os tiros com balas de borracha não se esgotaram rapidamente como gostaria. Parecia uma verdadeira “caça às bruxas”, mas na verdade se tratava apenas da polícia atirando em pessoas que estavam a exigir seus direitos. Estava com receio de voltar à rua, e levar um tiro simplesmente por estar retornando ao meu ônibus. Descaracterizei-me. Ouvi rumores, de que haviam muitas pessoas feridas, e de que o Temer havia declarado estado de sítio. Acreditei facilmente, pois mesmo em um shopping, senti-me brevemente encurralado pela polícia. Imaginava que complicações ocorreriam com a presença do exército. Preocupei-me com os companheiros que ali não estavam, e que felizmente encontravam-se em segurança.

Restou-me apenas uma dúvida. Fiquei pensando. Creio tê-la esclarecido. O que será que levou tantas bandeiras e indivíduos àquele episódio, mesmo com inúmeras divergências políticas, e mesmo com modos de se portar tão igualmente diferentes, levando em conta o nível da repressão que alí se deu? Acredito que a resposta não se encontra apenas com o reconhecimento da falta de legitimidade do governo Temer, mesmo se tratando de um momento em que as provas da ilegitimidade não param de emergir, apesar de reconhecer o impulso e a legitimidade que isto proporcionou à realização da manifestação. Mas também com o descontentamento? Talvez. Ou simplesmente trata-se essencialmente de um insight coletivo, instintivamente fundamentado na proteção do bem comum desta nação. No fim, carrego duas certezas. A primeira é a constatação de que foi muito significativo para a minha formação como animal político, como diria Aristóteles, a participação que pude exercer mas também presenciar neste episódio, visto que alí o sentido de minha individualidade sofreu certa “liquefação”. A segunda, porém não menos importante, é a de que esse “instinto”, caso seja movido à consciência, pode nos possibilitar a coesão prática e a orientação teórica tão fundamentais para que a política se expanda efetivamente para além das paredes deste aparentemente inalcançável Congresso…

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