Pobre debate, esse sobre a Reforma da Previdência. Pobre em todos os sentidos.

            Pobre na medida em que, mais uma vez, decisões cruciais sobre o destino de pessoas de verdade serão debatidas e tomadas sem qualquer tipo de consideração sobre a vida delas.

            Não é preciso ser um “gênio” da economia para entender isso. Aliás, basta não partilhar das premissas de muitos deles para entender isso. Basta ler a contrapelo o que muitos destes qualificadíssimos especialistas estão dizendo por aí: eles não têm muito a esconder.

            A reforma proposta [leia bem, não aquela outra, a necessária] não visa acalmar o trabalhador quanto a seu futuro, tampouco “ajustar as contas” do governo. Ela visa trazer calmaria ao mercado financeiro.

            Em períodos de recessão como o que vivemos, o discurso de austeridade – abundantemente regado pela manipulação de afetos como medo ou ódio – ganha força na boca daqueles que vêm apressados nos lembrar que “os gastos públicos estão fora de controle”, que o “Estado não é um pai provedor capaz de fornecer tudo”, que é preciso fazer “esforços” para superar a crise, etc.



            A questão que coloco é: correto, mas por que é sempre a Previdência Social a primeira na mira? Por que nosso país nunca reformou seu vergonhoso sistema de previdência e pensões militares convenientemente acordado em nossa “redemocratização”? Por que ainda gastamos quantidades esdrúxulas de dinheiro com uma dívida pública nunca auditada? Por que nunca discutimos a taxação sobre grandes fortunas? Por que a norma da austeridade não se aplica ao Legislativo e ao Judiciário que continuam se autorizando aumentos indefinidos de salário e benefícios?

            Para quem ainda precisa da resposta, aqui vai ela: a manutenção da precariedade do trabalho – ou como gosto de dizer “a administração da barbárie” – ocupa um lugar importante em nosso sistema político-econômico. Menos direitos e mais flexibilidade, mais tempo de trabalho com menos gastos trabalhistas: nosso sistema econômico ainda vive de nosso sangue.

            Nesse ínterim, a pobreza do debate continua na mídia. Quando a Folha e os demais jornais não estão ocupados demais em ganhar cliques por conta de um global falando fatos imprecisos sobre política e economia, ou quando não estão justificando a austeridade com seu exército de especialistas, então estão nos lembrando que a Reforma é necessária, não como a que está sendo feita, mas é necessária, de outro jeito que não será debatido, mas é necessária.

            É dessa forma que consentimos, mais uma vez, que é possível corrigir a horrenda situação política e econômica de nosso país sem mexer nos privilégios de nossa elite rentista, de nossos oligarcas, de nossos mandantes: acreditando que a Reforma da Previdência é uma medida de magnitude radical para o desenvolvimento de nosso país.

            Data venia, meu caro leitor: o tema é necessário, incontornável e polêmico, mas radicalismo é outra coisa.

            Como dizem os franceses, “é preciso quebrar os ovos para fazer um omelete”.

 

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