Na última semana logo depois de protestos expressivos, ainda que reduzidos se comparados aos anti-PT, convocados pelos movimentos de direita como MBL, Vem Pra Rua e outros minoritários, como grupos favoráveis a uma intervenção militar, o STF e o Senado protagonizaram mais um embate entre as instituições, mas com um desfecho que pode ser considerado novidade em relação ao que estávamos acostumados.

Nesse debate ficou muito claro que o poder de Renan Calheiros não pode ser comparado, de forma alguma, ao de Eduardo Cunha. Eduardo Cunha tinha grande poder sobre a bancada do PMDB e do chamado centrão da Câmara dos Deputados, mas seu estilo pouco ortodoxo de conduzir os trabalhos da casa, com manobras regimentais semanais, tornaram-no uma figura feia pro establishment do próprio PMDB. Renan Calheiros foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, líder do governo Collor até o momento do naufrágio, e depois um dos altos dirigentes da Petrobrás nos anos de Itamar. No Senado foi presidente, apoiado pelo PT, durante o auge do lulismo e depois retornou à presidência do Senado em 2013.

A celebração de seu poder no Senado, com o apoio de toda a mesa diretora daquela casa legislativa, e a mobilização do Executivo, e de membros do STF, nos bastidores e nos holofotes da mídia para poupa-lo por mais alguns meses na presidência do Senado  foi também a celebração da República do PMDB.

O que é esta República do PMDB? Esta república instaurada com a Constituição de 88 já conheceu 6 presidentes da república, dois do PMDB, não eleitos diretamente, e os outros 4 sempre dependendo de alianças com este PMDB, sempre entre as 3 forças do Congresso. O PMDB fez parte de todos estes governos e sempre mudou de lado a depender das eleições presidenciais. Este ano foi o partido que mais elegeu prefeitos em municípios pelo país sob as mais variadas alianças, e ficou atrás apenas do PSDB nas grandes cidades. 7 dos 27 governadores pertencem ao partido, e o PMDB faz parte da base de governo em pelo menos outros 15 estados da federação. Renan Calheiros presidia o Senado quando ao menos 3 dos atuais 11 ministros do STF foram indicados, e o partido presidia a Casa na indicação de ao menos outros 3.

Esta república manteve o presidencialismo mas deu poderes relevantes ao Congresso, naquilo que é chamado por alguns especialistas de “presidencialismo de coalizão”, ou seja, governa o país quem consegue costurar mais alianças com o Congresso, e com isso vimos todo o fisiologismo entre partidos e instituições beirar o paradoxal no Brasil. Abertamente, de Collor até Temer, a ordem do presidente da República é nomear ministros e gestores não por seus currículos, mas pelas indicações dos partidos dispostos a pegar uma fatia do bolo e tiverem representatividade no Congresso. Nessa toada, o PMDB de Eduardo Cunha aprovou uma reforma eleitoral que entrou em vigor esse ano e reduziu ainda mais o tempo de campanha política na TV, favorecendo as figuras de partidos mais conhecidos e com as maiores bancadas já consolidadas, conforme o resultado das eleições municipais atestam.

É esse mesmo PMDB que deseja tomar a direção da próxima grande reforma eleitoral, respondendo ao “recado das ruas e das urnas”. E conta com o apoio de sustentação de um meião fisiológico e do PSDB, partido que surgiu de uma dissidência do PMDB e tem setores majoritários defendendo o fim do presidencialismo e a adesão plena ao parlamentarismo, como Michel Temer, num congresso que vem sendo, tradicionalmente, controlado por este PMDB…

Os cenários pra 2018, ainda que extremamente precoces, colocam ainda mais fogo no equilíbrio de forças entre PMDB e PSDB, mas uma certeza fica: O PMDB é grande demais pra ser relevantemente abalado  por qualquer lista ou qualquer confissão em conluios pouco republicanos em que vier a ser envolvido, e isso pode radicalizar ainda mais as ruas tanto à esquerda quanto à direita.

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