As cotas não deveriam existir. Nem as raciais nem as socio-econômicas. Pelo simples fato de que as universidades públicas deveriam ser para as pessoas que estudaram em escolas públicas e não podem pagar por seu ensino superior.

De acordo com dados de 2015, na Universidade de São Paulo (USP) 35,1% dos alunos vem de escolas públicas. Isto quer dizer, obviamente, que 64,9% dos estudantes da melhor universidade do Brasil estudaram na rede privada.

Em 2015, o censo escolar mostrou que 18% dos estudantes do Brasil frequentam escolas particulares. Esse número era cinco pontos percentuais menor em 2014. As pessoas lutam pela oportunidade de colocar seus filhos na rede particular, porque a educação pública é de menor qualidade. Todo mundo quer que seus filhos estudem em uma escola boa para que, futuramente, possam passar no vestibular… Em uma faculdade pública.

Os melhores ensinos médios tem como objetivo principal que seus alunos entrem nas melhores universidades – que normalmente são as públicas, as privadas ficam como “consolo”. Mas, a contradição está no fato de que os melhores ensinos médios são PAGOS! Assim como os melhores cursinhos, onde estão os alunos que querem chegar nas universidades públicas.

Muitas faculdades particulares têm cursos tão bons quanto em universidades públicas, mas estudar na USP é status. É a coroação de uma vida acadêmica de sucesso nos primeiros 18 anos da vida de um estudante, de uma pessoa cujos pais dedicaram R$ 3 mil reais por mês por quase duas décadas e, agora, cansaram de pagar.

E os outros 82% dos estudantes, que não puderam pagar um ensino na rede privada? Que não conseguem ir para um bom cursinho quando não conseguem passar em uma universidade pública. Há algumas opções para eles: ou eles se esforçam para pagar uma faculdade popular, com mensalidades que “cabem no bolso”, recorrem a programas sociais, com o o Prouni, ou simplesmente não fazem o ensino superior.

É importante dizer que, de 2014 para 2015, as vagas no Prouni diminuíram 4%.

Em São Paulo, alguém que sonha em fazer direito e estudou em escolas particulares poderia optar por fazer PUC-SP, Mackenzie ou mesmo GV. Mas o sonho da maioria é estudar no Largo São Francisco, a faculdade de direito da USP. Mesmo que os níveis dos cursos sejam os mesmos e as aprovações na OAB sejam similares.

O mesmo acontece com inúmeros outros cursos, como engenharia, medicina e outros. No entanto, se a mentalidade fosse diferente, se as universidades públicas não fossem a casa da elite, se não fosse ocupada pela minoria dos estudantes que estudaram em escolas particulares e de altíssima qualidade, se não fosse onde estão as pessoas que podem pagar por seu ensino superior, os pobres poderiam ter mais oportunidades de ingressar em boas universidades e, consequentemente, no mercado de trabalho.

Continuar com o sistema como ele é significa compactuar com a segregação das classes sociais mais baixas. Quem tem dinheiro para bancar escola particular a vida inteira, deveria continuar na rede privada no ensino superior. Quem não, deveria ser o principal usufrutuário da faculdade pública.

Claro que, em um mundo ideal, o cenário perfeito seria que as escolas públicas fossem tão boas quanto as particulares, ou até melhores. Mas, como não temos esse cenário, para que os pobres possam ter a possibilidade de cursar o ensino superior, as universidades públicas deveriam ser para eles.

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