1971. Guerra Fria, Guerra do Vietnã, ditaduras sanguinárias em muitos cantos do mundo. Em meio a uma época tão turbulenta, na antiga TV Tim (atual Televisa), canal 8 do México, surge um quadro em formato de pequenas esquetes dentro de um razoavelmente conhecido programa de humor. O quadro, com produção capenga, era sobre as trapalhadas de uma criança pobre interpretada por um homem de 42 anos. Menos de dois anos depois, o quadro ganha série própria, e na sua abertura, a locução: “Este es el sensacional… Chavo del Ocho!” E assim nasceu o tão famoso e amado Chaves (como ficou conhecido no Brasil graças à sua maravilhosa dublagem).

O que torna essa série um fenômeno? Nem mesmo o próprio criador, o multifacetado artista Roberto Gómes Bolaños, mais conhecido como Chespirito (“o pequeno Shakespeare”), sabia explicar com muita clareza. Afinal, ninguém sabe ao certo por que algo vira fenômeno em meio a tantas outras coisas produzidas na mesma época. Mas Chespirito, como todo bom artista, era um observador. E ele observava com clareza as injustiças, as misérias, as brigas cotidianas, seus protagonistas e as realidades que os cercam. Dessa forma, o programa foi evoluindo de forma semelhante à evolução de Carlitos, célebre personagem de Charles Chaplin. De um beberrão grosseiro e agressivo, Carlitos se tornou mais humano, ficou terno, amigável, sensível e um batalhador incansável em meio às contradições sociais. Chaves, de um programa caricato e troglodita, foi se tornando extremamente cativante, pois qualquer pessoa de qualquer sexo, idade e condição social, pode se enxergar em pelo menos uma das principais personagens. Com seu humor ingênuo, porém elaborado, sem apelação, intolerância e baixaria,  Chaves extrapolou as fronteiras do México e uniu a América Latina inteira, de uma forma que Simón Bolívar, San Martin e Che Guevara jamais conseguiram fazer: com humor e amor.



As décadas foram passando. O Muro de Berlim caiu, a globalização ascendeu, a democracia foi timidamente retornando (e sumindo novamente), novas crises econômicas e políticas, o 11 de Setembro, a internet, os levantes das vozes das minorias sociais… O mundo mudou demasiadas vezes em um curto período de 40 anos, mas Chaves continua aqui, e com força. O menino do barril e sua vizinhança romperam o continuum espaço-tempo. Geração após geração, crianças, adolescentes, adultos e idosos não apenas riem, mas gargalham das mesmas piadas. Segue sendo exibido nos cinco continentes, foi dublado em pelo menos 30 línguas e se assimilou às próprias culturas locais. Aqui no Brasil, mesmo os marcianos que nunca viram Chaves nos 32 anos em que passa no SBT, usam ou pelo menos ouviram sendo usadas em conversas frases como “isso isso isso”, “ninguém tem paciência comigo” e “foi sem querer querendo”. Ao contrário de todas as celebridades que morrem, ninguém “virou fã” de Bolaños quando ele faleceu em novembro de 2014: todo mundo já era fã dele, ainda que muitos não soubessem quem era o homem por trás do menino.

Tudo isso conseguido por uma série vinda de fora do eixo anglo-saxônico, com baixo orçamento e com adultos interpretando crianças. Se você, após ler este artigo, ainda acha que Chaves não é a melhor série de todos os tempos, não me vingarei, pois a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. Mas não venha querer se aproximar de mim, pois eu não me misturo com a gentalha. 

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