O seriado, original da Netflix, “Sense 8” não é sobre uma mulher trans, ativista e lésbica que quer “foder o mundo” (até aqui muita empatia de minha parte, admito). Nem é sobre as dúvidas existenciais do macho alfa gay – nada mais “macho alfa “que um macho alfa gay, convenhamos. Tampouco é uma pseudo reflexão sobre a postura dos filhos das famílias tradicionais ao regime que os aprisiona, envergonha, por qual lutam sem ganhar nada se não mais prisões e vergonhas. Não é sobre a rebeldia daqueles que não tem motivos para serem rebeldes e nem para os que possuem fortes motivos…

Não, transeuntes transviados. Lhes digo; Sense 8 é, substancialmente, sobre religiosidade!

Ensinam-nos os historiadores das religiões e cientistas das religiões (todos eles, apesar de tudo, concordam num ponto) que religiosidade é, qualquer que seja, sobre “religar-se”. O famoso “religare”. O fundamental: voltar a se ligar àquilo que é sagrado, rompendo com as “amarras do profano”.  O abandono do profano em direção a uma busca pelo sagrado. A construção de uma ligação sólida e fundamental, não à Deus (à ideia sobre ele), não à moral, não à “coisas”, mas à um princípio sacro, uma realidade sagrada!

Então, sobre o que é Sense 8? É um seriado sobre indivíduos que rompem com sua individualidade, suas crenças pessoais, suas particularidades, culturas regionais, desejos pessoais e preocupações pessoais (até aqui “aspecto profano”) para se ligarem ao outro (ser humano ) e assim o ajudar em seus momentos de dificuldades, quaisquer que sejam (princípio sagrado, sacro).

Acontece que o seriado não é sobre esta religiosidade de cartão de crédito, tão comum nos tempos atuais, onde a fé é substituída por fanatismo e o conforto vem do quanto você doa para seu templo (pensamento comum desde a Idade Média). Uma religiosidade capenga, chinfrim, baseada no “copia e cola” de textos que ninguém se importa quem traduziu, de que ninguém se importa se estão em contexto ou não, se fazem sentido ou não, se traduz respeito ou imposição. Não, Sense 8 traz a religiosidade “na veia”! É aquela religiosidade de Jesus, de Sidarta, de Maria. É aquela religiosidade daqueles que, ao invés de estarem em templos, estão entre o povo, realmente ajudando quem precisa, quem quer que seja que precise.



Claro que, para a maior parte dos “religiosos” de hoje, “ser religioso” se limita a ficar em um espaço muito bem delimitado, com um livro na mão, gritando para o alto e passando o cartão em uma maquininha moderna. Por este motivo, a dificuldade de entender a “religiosidade hardcore” de Sense 8. A religiosidade de se religar ao sagrado. E o que é sagrado? Errou quem respondeu “Deus”, acertou quem pesou: seres humanos. O sagrado é, fundamentalmente, o outro. Pois se religar ao outro te leva a religar a si, pois religiosidade aqui, como ali em Jesus, Maria e Sidarta, é o religar ao outro ajudando-o em sua necessidade e assim perceber que o outro se liga a você, e que para a construção de uma sociedade melhor, para que todos possam conviver melhor, as barreiras individuais devem estar abaixo das necessidades do próximo.

Sense 8 é sobre um grupo de pessoas que passa a perceber que é preciso se conectarem, umas com as outras, se ajudarem, umas às outras, para que todas possam sobreviver. É sobre doar ao outro o seu tempo, o seu talento, a sua ajuda e não o seu cartão de crédito. É sobre estar no mundo, na rua, buscando esta conexão, buscando compreendê-la para desenvolvê-la, pois não ignora sua dificuldade. É sobre um outro totalmente diferente: cor, raça, opção sexual, gênero, posição cultural, posição financeira, crença pessoal… mas que precisa fundamentalmente de sua ajuda, assim como você precisa da dele, para, sobreviver. Ou, quem sabe, construir um convívio melhor no futuro, uma sociedade melhor.

Num mundo de religiosidade “pagou salvou”, onde o princípio religioso se limita a gritar trechos fora de contexto de um livro e buscar impor ao outro seu modo de vida, há sim muito mais religiosidade em um seriado “porra louca” da “internet” do que na sua igreja “passa cartão e durma feliz”.

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