“Os cavaleiros do século IX e X, e mesmo a maioria dos cavaleiros posteriormente, não se portavam com especial delicadeza com suas próprias esposas, e de maneira geral, com as mulheres de classes mais baixas. Nos castelos, as mulheres ficavam expostas às “cantadas” grosseiras do homem mais forte. Podiam defender-se mediante estratagemas, mas nesses locais, era o homem quem mandava. (…) Ouvimos ocasionalmente falar de mulheres que, por temperamento e inclinação, pouco diferiam dos homens. A senhora do castelo era nesse caso uma “megera” de temperamento violento, paixões ardentes, submetida desde a juventude a todos os tipos de exercícios físicos e que tomara parte em todos os prazeres e perigos dos cavaleiros que a cercavam. Mas com frequência, ouvimos também falar do outro lado da moeda, do guerreiro, fosse rei ou simples senhor, que enraivecendo-se socava a esposa no nariz até o sangue correr.

‘O rei ouviu isso e a raiva coloriu-lhe o rosto; erguendo o punho, atingiu-a no nariz com tal força que tirou quatro gotas de sangue. E a senhora disse: “meus mais humildes agradecimentos. Quando lhe aprouver, pode fazer isso novamente’.

‘Poderíamos citar outras cenas do mesmo tipo’ diz Luchaire. ‘Sempre o soco no nariz com o punho fechado’. Aém disso, o cavaleiro era sempre censurado por ouvir o conselho da esposa.

‘Senhora, retire-se para o seu lugar diz por exemplo um cavaleiro, ‘e coma e beba com sua corte em suas câmaras pintadas e douradas, ocupe-se em pendurar cortinados de seda, pois esse é seu mister. O meu é cortar com espada de aço’”.

Esse excerto acima, retirado do livro O Processo Civilizador Vol. 2 de Norbert Elias, busca demonstrar de que forma as mulheres eram tratadas e vistas durante a Alta Idade Média. Neste período, no qual a sociedade judaico-cristã estava em seu início, o papel feminino, salvo raras exceções como Branca de Castela e Leonor da Aquitânia, era de subordinação ao poder masculino, com poucas possibilidades de autonomia e de decisão. A mulher era vista com desconfiança e medo. Eram seres vistos como altamente manipuladores e que cabia ter distância. Mas ao mesmo tempo, a atração física e a necessidade de procriação não permitia que a negasse por completo. Então, reduzir o espaço de atuação social da mulher ao mínimo possível e a subjuga-la fisicamente para permanecer reclusa no lar, para evitar que ela se “perdesse” e se “desviasse” do caminho desejado pelo poderio masculino.

Por ser perigosa, portanto deveria ser controlada, a mulher também era a mãe que deveria ser respeitada em seu dom maternal. Eva e Maria são as imagens que são contrapartes de um mesmo ser. A Eva, mulher sedutora e enganadora que com sua fraqueza e pouca perspicácia conduziu o homem à queda quando o ofertou e o fez comer a fruta proibida. Por isso, todo cuidado com as mulheres é pouco. Cair nos braços de uma é se deixar dominar por um ser que levará os homens à queda. Dalila, Agripina, Cleópatra, Jezebel, Fredegunda, Circe, todas essas herdeiras da primeira mulher, foram os flagelos dos homens que com elas se envolveram. A herança de Eva recaia sobre as mulheres e cabia ao homem se proteger delas. Por isso mesmo, há de ter a contraparte que deve servir de modelo para as mulheres seguirem. Maria cumpre esse papel. Ela, mulher que simboliza o sacrifício feminino, a pureza da mãe que dá origem a um ser divino. Só de uma mulher que supera as consideradas na época “fraquezas inerentes de seu sexo” pode se elevar acima das demais e ser digna de ser mãe de um deus.

Por isso mesmo, a mulher deve ter como missão imitar o exemplo de Maria. Se elevar espiritualmente e purificar-se, a fim de se dignificar através da piedade religiosa e maternidade, se adequando à sua real posição que é de sujeição ao homem, e de acordo com Gênesis Capítulo 3, Adão tem a missão de comandar o lar, a mulher, por ter sido a culpada da queda do homem, terá as dores do parto multiplicadas, terá seus desejos sexuais e afetivos apenas destinado ao seu esposo e ela estará sujeita ao domínio masculino. Tal penalidade que a primogênita entre as mulheres recebeu da mão do ser divino só poderá ser reparado com ela seguindo o exemplo de Maria, o arquétipo ancestral da mãe provedora, pura, que não questiona o status quo, e que sabe o seu lugar. Ao poder patriarcal compete submeter a mulher para que cumpra seu destino e siga o exemplo da Maria, tendo o homem como “cabeça da mulher” (como prega a Bíblia em Efesios 5:23).

Em uma estrutura de longa duração o pensamento ocidental, não obstante as conquistas das mulheres dentro de uma sociedade com valores patriarcais, onde com muita luta desde o século XIX elas tem adquirido, ao menos de maneira formal, os mesmos direitos  dos homens, ainda vemos a operação da dualidade Eva-Maria operando simbolicamente no imaginário masculino, o que se traduz em suas práticas. A legitimação social para o assédio é bastante ampla e aceita como parte da natureza masculina, o que é estimulado pelos pais na educação dos filhos do sexo masculino. Em uma pesquisa durante o Carnaval de 2016, 61% dos homens entrevistados dizem que se a mulher solteira sai para comemorar o Carnaval não pode reclamar se for assediada. 49% disseram que blocos não são para “mulheres direitas”. Outro índice alarmante é que, de acordo com pesquisas,recentes , 86% do gênero feminino afirma ter sofrido assédio em público.

Todos esses dados demonstram que existe uma cultura do assédio à mulher. Quando me refiro à cultura, para evitar a já comum banalização do termo, há de se entender o sentido em que está sendo aplicada essa palavra. Ela no original do latim significa “agricultura”, ou seja, tem a ver com plantar, cultivar. Significa que enquanto sociedade cultivamos a submissão feminina e a falta de respeito aos seus corpos, que continuam sendo vistos como propriedade masculina. O “pecado original” ainda recai socialmente sobre a mulher na forma de assédios e diversas violações sobre seu corpo. Tais abusos tem longa história no Brasil e é “cultural” no sentido de ser cultivado e enraizado nas estruturas de formação do nosso país. No período colonial veio para cá, da Europa, inicialmente em grande parte homens, e que para satisfazer seus desejos sexuais, não raro estupravam índias. Mesmo quando houve o maior equilíbrio demográfico entre os gêneros, a situação feminina não melhorou e o duplo Eva-Maria se operou fortemente em uma sociedade patriarcal, escravista e desigual.

Os senhores de engenho viam nas suas mulheres o ser que deveria cuidar do lar, procriar e agradar o esposo. Elas mal poderiam sair da casa grande sem o aval masculino, e tinham vida social extremamente restrita. Era com a escrava que o senhor poderia por em prática todos os seus desejos. E normalmente, de forma violenta, já que as vontades da negra pouco importavam, pois a função da escrava era obedecer sem reclamar. Era nas mulheres que o poder de mando masculino na sociedade colonial se colocava em primeiro lugar. O chefe da casa tinha poder de vida ou morte sobre elas, fossem essas mulheres suas esposas, filhas ou escravas. O poder pátrio era reconhecido e se o esposo matasse a sua mulher por suspeita de traição, não era considerado crime. Em caso de estupro, havia a perseguição do malfeitor. Não pela dor que ele causou à mulher. Sim para vingar a honra do chefe de família, já que o estupro era uma vergonha para o homem, já que tal ato violava a autoridade dele sobre as mulheres de sua casa. Os abusos que ele viesse a cometer com as mulheres de seu lar, não eram vistos como algo errado, e elas eram silenciadas, pois não havia a quem recorrer para lhes auxiliar contra tais desmandos, até porque era mal visto reclamar publicamente do esposo.

O caso de estupro ocorrido nessa semana, onde 30 homens abusam de uma mulher, nos choca e indigna. Porém, para tomar medidas efetivas contra tal questão, para que haja políticas preventivas e educacionais a fim de evitar tal barbarismo, é necessário compreender as origens culturais e simbólicas em que se opera a visão do feminino na sociedade ocidental e na brasileira. O padrão duplo Eva-Maria é uma das chaves de entendimento de como esse arquétipo feminino ainda opera, que hoje é traduzido para “Puta-Santa”. Não é por acaso que grande parte dos homens ainda esperam que as suas esposas e namoradas ajam como santas. 85% acham inaceitável que uma mulher fique bêbada, mostra uma pesquisa. 69% não querem que as mulheres saiam com amigos sem seus maridos e 46% não gostam que elas usem roupas decotadas. A visão de que a mulher boa é aquela”bela, recatada e do lar” é ainda muito concreta e uma visão dominante no universo masculino, mesmo após os grandes avanços da liberalização feminina.

Combater esses estereótipos e a visão dual que se tem sobre a mulher exige ainda maiores discussões e avanços educacionais. Para isso, é necessário o engajamento de diversos setores sociais para haver efetiva transformação. Quais os caminhos dentro desse desejado engajamento social para transformar a cultura machista em que vivemos? Não tenho as respostas prontas. Pois esse é um assunto que as protagonistas devem ser as mulheres. A voz deve ser principalmente delas, as maiores vítimas desse sistema. Elas devem ser empoderadas para ter voz nas políticas públicas. Esse caminho teremos que percorrer até que a mulher possa ser o que ela quiser sem haver represálias às suas escolhas. Seja ela Eva ou Maria, que não haja mais “pecados originais” para as mulheres terem que pagar. Apenas liberdade de escolha para serem donas de si.

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