(Foto: #ACracoResiste)

Me recuso a acreditar na maioria das coisas que ouço, principalmente quando o assunto é polêmico. Por isso estive um dia, como em outros lugares que conheci de repórter, no meio da famosa cracolândia paulistana. Até aí, nada demais. O Eduardo Suplicy, que é a figura de senador da República por excelência (como um romano antigo), também já esteve lá muitas vezes.

Eu visitei a cracolândia numa noite de carnaval, assim que voltei de uma viagem pela Argentina e o Uruguai, no ano que finalmente terminou. Tive ajuda de um guia que conheci na Praça Roosevelt depois de ter mijado perto da sua casa – ele havia dito: “ei, é minha casa!”, e eu interrompi a mijada, puxando conversa para me desculpar. Não me lembro o nome daquele rapaz, mas ele já havia tomado um tiro nas costas e estava na rua por causa de muitos motivos que só ele pode entender. Era um fumante moderado de crack…

Não vi nada que me escandaliza-se na cracolândia, exceto por uma organização espontânea que faz pensar, de certa maneira, nos centros de redução de danos para dependentes químicos na Europa. Obviamente o lugar não é chique, tampouco dispõe de equipamentos e acessórios especiais para a gestão do vício coletivo (se não me engano), como aqueles encontrados na Espanha e na França. Havia tendas vendendo estupefacientes como numa feira de domingo. Crack e cocaína, que são os produtos finais da pasta-base andina. 

O maior erro que uma sociedade pode cometer é ignorar um assunto como se ele não existisse. Ou tentar resolver tudo na porrada. Acho que as duas formas de lidar com as coisas estão intimamente ligadas. Um governo passa anos ignorando ou proibindo determinados assuntos, enquanto o veneno ideológico vai fermentando nas tripas do poder, e depois ele vomita toda a sua bile sobre as gentes. Eu não usei nada naquela noite na cracolândia, apenas tentei comprar algo com 50 pesos argentinos para ver se, pelo menos ali, o dinheiro de Macri ainda vale alguma coisa (e não valia). Quando eu e o Virgílio da Rossevelt nos sentamos numa roda, um dos seus amigos que fumava me disse para nunca dar “o primeiro beijo” no cachimbo. Os cachimbos eram todos muito parecidos – melhor seguir o conselho, pensei.

Participando de um trabalho intenso na Chapada Diamantina, esse ponto nervoso da América Latina, eu não sei, eu não quero nem saber quais são os planos do João Dória para a Craco. Como já disse, eu não acredito na maioria das coisas que ouço; interessam-me apenas os fatos – e não é segredo para ninguém que os veículos da grande mídia estão agindo de maneira excessivamente parcial nos últimos tempos (o horror, o horror diário). Além do mais, o prefeito deve mudar de ideia umas cinquenta vezes em relação a isso até o final do ano. Porém, fico realmente contente em saber que algumas boas almas protegem as pessoas no território onde o alcaloide é o único alívio para todos os outros problemas. 

Considero crucial compreender a relação oculta entre a instalação de uma nova placa de um banco com o ingresso de uma pessoa na vida mendiga, como sugeriu o Dr. Hunther Thompson em sua viagem a Porto Rico, nos anos 1970. A comparação pode ser facilmente substituída pela imagem de um jovem brasileiro que, pobre e perdido, se entrega à fumaça da pedra e vai viver na cracolândia, enquanto a previdência social, no sentido mais amplo, vai para o brejo. Esse jovem estará presente no churrasco que está sendo organizado na rua Helvetia (o endereço da Craco), no Centro de São Paulo. O evento tem a nobre missão de mostrar aos paulistanos, ou pelo menos para aqueles que ainda não ficaram cegos demais para ver: somos humanos, demasiadamente humanos, como você, ó sóbrio cidadão.

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