Eu penso que todos os internados em manicômios são dissidentes políticos. 
– Franco Basaglia 
 
        Quando Franco Basaglia (1924-1980) chegou ao Brasil para realizar uma série de conferências, ele era conhecido como o psiquiatra que abriu as portas dos manicômios na Itália – visto por uns como revolucionário e por outros como um louco. 

        Na conferência Técnicas psiquiátricas: instrumento de libertação ou de opressão, realizada em 1979 na cidade de São Paulo, Basaglia afirma que “a razão pela qual muitas dessas pessoas tinham chegado ao hospital foi a consequência de uma vida social insuportável. O manicômio não fez mais do que pegar essas pessoas indesejáveis e comprimi-las nas instituições, ou seja, uma espécie de morte civil. Essa é ainda a terapia dos manicômios”[1].  

        Até 1961, quando assumiu o Hospital Psiquiátrico de Gorizia, Basaglia era professor da Universidade de Padova. Mas, depois de 13 anos de cátedra, percebeu que os psiquiatras eram “adestrados e condicionados” [2] a agirem de modo a conservar a ordem social na qual estavam inseridos.  

Nos delegaram o exercício da violência […] o paciente vinha à clínica universitária, espécie de ante-sala do manicômio, incorporava a punição implícita no diagnóstico, era usado como objeto de estudo e depois era mandado de volta ao manicômio onde estava sendo destruído. [4] 
 
 

 
Relação entre miséria e loucura 

 
O que aconteceu na Itália foi algo muito simples: rejeitamos o poder que nos haviam dado no papel de médicos, poder que nos dava possibilidade de oprimir. Procuramos assumir outro compromisso, o compromisso com a parte oprimida da sociedade. [5] 
 
        Entender o paciente não apenas como um paciente, mas como um ser humano em todas as suas demandas: esse era um dos princípios da Negação da psiquiatria. No livro, Franco Basaglia expõe a necessidade de dizer não à psiquiatria como forma de opressão e explora a relação entre loucura e miséria, ou seja, procura entender a loucura também como conflito de relacionamento com um sistema opressor.   
 
Quando dizemos não ao manicômio, estamos dizendo não à miséria do mundo, e nos unimos a todas as pessoas que lutam por uma situação de emancipação. […] Nós não podemos falar apenas sobre psiquiatria. Precisamos falar sobre a miséria da vida, porque essa é a verdadeira situação, o verdadeiro contexto no qual se edifica a psiquiatria. […] Se a miséria desaparecesse, a psiquiatria continuaria existindo? [6]  
 
        No entanto, Basaglia ressalta que a loucura não é somente uma questão social, assim como também não é somente uma questão psicológica: “vejo a loucura como expressão das contradições do nosso corpo e, quando digo corpo, digo orgânico e social”. Para ele, a loucura era consequência de uma interação entre os níveis orgânico, psicológico e sociológico ainda pouco conhecida.  
 
        Essa falta de saber sobre a loucura foi suprimida por um violento poder cuja maior expressão foi o manicômio. 

 
 
A experiência dos manicômios de Gorizia e Trieste 

 


 
        A loucura precisa ter o direito de exprimir-se, de ser ouvida, de falar em seu próprio nome: essa era uma das ideias fundamentais do livro A história da loucura, de Michel Foucault, publicado em 1961 – ano em que Basaglia atravessou os portões de Gorizia para assumir a direção do hospital. Foi a partir da leitura das obras de Foucault e dos relatos sobre a criação de comunidades terapêuticas na Escócia que Basaglia começou a introduzir uma série de transformações no Hospital Psiquiátrico de Gorizia.  

        Basaglia, assim como Philippe Pinel, acabou com as chamadas “medidas de contenção”, ou seja, com todos os tipos de amarras. Posteriormente, criou condições para que os pacientes se reunissem e organizassem grupos para discutir com médicos e técnicos a violência institucional a que estavam submetidos. Pacientes passaram, portanto, a influir e decidir sobre suas vidas. O cuidado, antes monopólio do saber médico, passou a ser espaço de diferença e divergência.  

         Basaglia ficou em Gorizia até 1968, quando assumiu o Hospital Psiquiátrico Regional de Trieste, onde iniciou um processo de desativação do manicômio, criando estruturas externas de suporte: emergências psiquiátricas, cooperativas de trabalho, moradias assistidas, uma rede territorial que descentralizou o cuidado com a saúde mental, visto que esses espaços reuniam profissionais de diversas áreas, tais como psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, entre outros.  

        Abrir as portas do manicômio fez com que Basaglia fosse considerado louco. Sobre isso, ele comenta: “que bom seria se no mundo existissem mais dessas loucuras! Então, poderíamos dizer: ‘sim, é verdade, o mundo está mudando!’” [6]. 

        Em 1973, a Organização Mundial de Saúde considerou o modelo implantado por Basaglia em Trieste a principal referência para a reformulação do atendimento de saúde mental no mundo. 
 

Barbacena: o holocausto brasileiro 

 
        No canto do pátio, havia uma criança morta com o corpo coberto por moscas, em torno dela, mulheres nuas andavam sem direção. Um cheiro de morte cercava as proximidades do Hospital Psiquiátrico de Barbacena: dos trens que despejavam centenas de pessoas consideradas socialmente indesejáveis ao horror encontrado nos pavilhões e dormitórios. 

 
        “Pior que um campo de concentração”, foi assim que Franco Basaglia descreveu o hospital de Barbacena. Em julho de 1979, o médico interrompeu seu ciclo de conferências para discutir junto a organizações políticas e movimentos sociais as condições desumanas do hospital.  

        A repercussão internacional de sua vinda ao Brasil permitiu que o silêncio imposto pela ditadura aos movimentos sociais fosse rompido. Essa união de forças construiu o debate que levou à desativação gradativa do hospital de Barbacena. Foram quase 80 anos de funcionamento e mais de sessenta mil mortes. 

 
        Em sua última conferência em Minas Gerais, Basaglia diz que “o que importa é que estejamos unidos, pois o nosso inimigo é muito forte e o que nos une é o fato de querermos uma transformação muito mais ampla e não apenas de uma transformação da psiquiatria”.  

        Retomar a experiência de Basaglia no mês da luta antimanicomial é uma forma de refletir sobre o hoje, afinal enfrentamos retrocessos em todas as áreas. E, como ele ressalta em Negação da psiquiatria, nenhuma conquista é permanente.  
 
 
 
 
NOTAS 

[1], [2], [3], [4], [5], [6], [7]: BASAGLIA, Franco. A psiquiatria alternativa: conferências no Brasil. São Paulo: Brasil debates, 1984. 

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