Na madrugada de terça para quarta-feira, dia 9 de novembro de 2016, me mantive acordado assistindo a apuração das eleições americanas de perto pela rede de noticias CNN, era minha melhor opção no momento. Antes da apuração começar já apostava que Trump iria surpreender, a volatilidade das pesquisas e a parcialidade da mídia pró Clinton já indicavam que algo parecia fora do lugar, falei sobre isso dia 31 de outubro aqui (http://theglobalp.com.br/a-midia-os-institutos-de-pesquisa-e-as-eleicoes-americanas/ ), o caminho de Hillary estava livre demais.

A mídia tentou transformar a eleição em uma guerra moral e os antes sérios meios de comunicação americanos transformaram-se em verdadeiros programas de fofoca com um único objetivo a alcançar: ridicularizar Donald Trump do começo ao fim na esperança de que isso tocasse grande parte da população norte-americana fazendo com que Hillary Clinton viesse a se tornar a primeira mulher eleita presidente dos EUA de forma relativamente tranquila. Eles deveriam ter aprendido alguma coisa com as primárias republicanas, o presidente eleito parece que aprendeu e se aproveitou muito bem disso na terça-feira. Vamos voltar um pouco no tempo.

Trump conseguiu a proeza de não ser unanimidade nem mesmo em seu partido. Durante as eleições primárias colecionou inimigos dentro da própria casa, candidatos derrotados por ele que declararam publicamente que não o apoiariam mesmo após este ter sido formalmente nomeado. O que todos eles tinham em comum? Em linhas gerais todos eram candidatos tradicionais, políticos profissionais se assim preferirem e já estavam há muitos anos se preparando para aquilo.

Quando a campanha presidencial de verdade começou, a artilharia que já era pesada em cima dele aumentou, agora, era atacado também pelo Partido Democrata e pela imensa maioria da chamada mainstream media americana. Concorrer contra alguém com tantos inimigos e tão repudiado por políticos tradicionais de ambos os lados e pelos formadores de opinião, seria um sonho para qualquer candidato em qualquer eleição que vimos acontecer nos últimos 20 anos, mas em 2016 parece que lutar contra tudo isso trazia mais entusiastas do que críticos. Quanto mais o status quo político batia em Trump, mais ele crescia entre os silencioso eleitor rural norte-americano.

Cansado dos candidatos tradicionais e da velha forma de se fazer política este eleitor silencioso passou por dois mandatos de George W Bush e viu em Barrack Obama a oportunidade de grande mudança não se concretizar, em 2016 resolveu dar um All In no jogo das eleições e colocar pela primeira vez na Casa Branca um candidato que nunca fez parte da jogatina política de Washington.



Apesar do excesso de maquiagem, do cabelo e do jeito bonachão tornar fácil a tarefa de transformá-lo em uma caricatura por seus adversários, para os esquecidos ele se pareceu muito mais humano e verdadeiro do que sua oponente Democrata, que parecia perfeita demais para ser verdade. Trump mostrou ter falhas como a maioria das pessoas; falou bobagens sem pensar e no calor da emoção numa época em que a moda é pensar uma, duas, três vezes antes de falar; não teve medo do politicamente correto que se tornou o modus operandi do mundo nesta última década.

Os esquecidos habitantes das áreas rurais americanas viram no extravagante empresário a salvação perante as políticas progressistas do governo Obama que não tiveram um efeito positivo nesta parcela da população. Silenciosa, ela não deu bola para as pesquisas e simplesmente saiu para votar no dia da eleição, sabendo exatamente quem era o candidato que fazia suas vozes serem ouvidas novamente e quem era a candidata que defendia uma agenda completamente oposta a seus valores.

Alguns dirão que a América retrógrada venceu já que em grande medida o que tornou possível a eleição de Trump foi o voto pró armas de fogo, contra o aborto, contra o terrorismo, enfim, o voto conservador. Mas a simples demonização dos valores conservadores já demonstra a miopia de quem faz essas análises.

Os EUA que venceu as eleições é o dos esquecidos pelas últimas administrações. É emblemático ver o que aconteceu em Estados como a Pensilvânia, Michigan e Wiscosin, todos no chamado Cinturão da Ferrugem americano. Predominantemente democratas há décadas os eleitores decidiram dar um voto de confiança a quem lhes prometeu restaurar o orgulho e os bons velhos tempos de abundancia. O trabalho foi muito facilitado pela campanha Clinton é verdade, nas regiões conhecidas pelo incrível número de fábricas fechadas e cidades quase que fantasmas os Democratas deram a campanha como ganha e sequer apareceram por lá. O recado à 8 anos de esquecimento foi dado nas urnas.

A eleição americana tem o potencial de alavancar candidaturas conservadoras ao redor do mundo. Na Europa e no Brasil candidatos com estes valores animaram-se e prometeram dar trabalho nas próximas eleições. Os velhos políticos e analistas estão perdidos, durante anos trataram os expoentes de vozes mais conservadoras com desdém, como se fossem uma minoria insignificante querendo aparecer.

Em tempos de crises como o que vivemos talvez devessem prestar mais atenção no que estes candidatos tem a dizer. A população mundial claramente está cansada de candidatos perfeitos com discursos bonitinhos e politicamente corretos e com pouca capacidade de gerar mudança. Os conservadores vem aí.

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