I. “Por qual motivo na Terra…?”

Em pleno processo de redemocratização, São Paulo teve eleições livres para governador em 1985, após anos de interrupção. Os principais candidatos eram Fernando Henrique Cardoso, um político-intelectual; Eduardo Suplicy, a esquerda à esquerda de um partido recém-criado, o PT; e Jânio Quadros do PTB.

Conforme as urnas eram apuradas e a vitória de Jânio Quadros se tornava inevitável, os rostos no QG de Fernando Henrique Cardoso ficavam cada vez menos esperançosos não apenas pela vitória: ficavam menos esperançosos pelo Brasil. Recém-derrotado FHC confessa a um jovem repórter, Marcelo Tas: “o malufismo ressuscita, mas é um malufismo diferente, populista, com base popular”. E conclui: “São Paulo tem desses fenômenos chatos: quando você escapa de um, cai em outro…”

O resumo de toda essa desesperança se resumiria na constatação incompreensível: depois de anos de ditadura, agora que finalmente temos liberdade, democracia, voto, voz, por qual motivo na Terra votaríamos em alguém que representa uma continuidade de tudo aquilo?

 

II. O triunfo da desesperança

Era esse o tom da mídia internacional na manhã seguinte à vitória de Trump: desesperançoso. Uma dúvida similar pairava – “porque um direitista xenófobo, machista e racista depois de um liberal negro?” –; um mesmo sentimento de aprisionamento no passado – mais de um comentador traçou paralelos com a década de 30. Desesperança em todo lugar.

A desesperança era tanta que, debaixo de um ótimo editorial realista e pessimista, o The New York Times achou conveniente colocar a opinião de um republicano que votou em Hillary dizendo o porquê Trump, no fundo, pode ser um bom presidente. A resposta: basta que ele não cumpra nada do que prometeu. Nada ali convence. Só piora aliás. A desesperança reina.

 

III. Desesperança, ódio e medo

De onde vem tanta desesperança? Como Trump conseguiu se eleger a despeito de todo espanto que seus discursos alimentavam nos americanos pensantes? Simples. Ele usou o outro lado da moeda: ódio e medo. Desesperança, violência e medo sempre andaram juntos em política. O que o slogan “Make America great again” diz é: “temos medo de não sermos grandes”. Angústia narcísica nacionalista.

 

  IV. Nada de novo no fronte. 

Todos estão frustrados e chocados como se houvesse algo novo aqui. Mas esse embate entre esperança e medo, entre diálogo e ódio, entre abertura e isolamento não é precisamente um dos principais mecanismos de funcionamento da democracia norte-americana, marcada por um “monopartidarismo bifrontal”, como um amigo disse? Esquecemos que há bem poucos anos George W. Bush despejava litros de chorume em nossas cabeça e toneladas de bombas pelo mundo? Esquecemos que, com diferenças de grau, Clinton, Bush pai, Reagan, Kennedy, etc etc, fizeram o mesmo?

A questão não é, como muitos estão dizendo, que “sobreviveremos” a Trump também. Talvez não sobrevivamos, na verdade. A questão a que sempre foi: 1) quando a desilusão dos americanos vai finalmente reavivar sua histórica criatividade política para fugirem dessa farsa capaz de colocar o maior acervo nuclear do mundo nas mão de qualquer psicótico? e 2) quando pararemos, nós, de fantasiar e invejar nossos poderosos irmãos do norte para finalmente assumirmos que os Estados Unidos são um problema para nós, a periferia do mundo?

Me parece que estávamos melhor (e mais certos) com 15 anos e nossas camisetas do Che do que hoje, adultos ridiculamente desiludidos.

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