Analisando o momento atual turco, nós, brasileiros, devemos tomar muito cuidado com o provincianismo, ou seja, olhar uma sociedade completamente diferente da nossa com os nossos olhos. Digo isso devido ao fato de que as ações desestabilizadoras de ambas as democracias, na realidade, são diferentes. De um lado, o Brasil possui problemas como violência oriunda do tráfico, corrupção partidária e irresponsabilidade fiscal. De outro, a Turquia tem dois problemas principais, o flerte com o autoritarismo religioso, sempre na disputa entre estado laico e um estado mais pendente ao islamismo; e, além disso, tem a questão do conflito com os curdos que assola por muito tempo o país, gerando a morte até hoje de cerca de 40 mil pessoas.

Desde a primeira guerra mundial, existe um processo de secularização da sociedade turca, ou seja, da concretização de um estado democrático e laico. Desde então, o que ocorreu foi uma disputa entre aqueles que desejavam a continuidade desse estado laico e aqueles que queriam um estado mais religioso, pendendo mais ao islamismo. Por esse motivo, diversas vezes, as forças armadas intervieram no país, depondo do país governos considerados autoritários sobre essa ótica de estado laico. Com esse argumento, os militares depuseram governos democraticamente eleitos em 1960, 1971, 1980 e 1997.

Sabemos que Erdogan, um homem já três vezes primeiro-ministro do país e hoje presidente, quer transformar o país em um regime presidencialista, uma vez que hoje, a Turquia parlamentarista, teoricamente, limitaria seu poder a chefe das forças armadas e mais algumas questões protocolares. E a forma com que ele vem tentando tal reforma é altamente contestável. Isso decorre do fato de que seu partido, embora possua a maioria no parlamento, não possui a maioria absoluta para mudanças constitucionais.

Tendo isso em vista, surge uma questão extremamente complicada, pois, de um lado temos um presidente e ex-primeiro ministro, que embora democraticamente eleito diversas vezes, em eleições oficiais com presença internacional, literalmente não respeita as instituições e a democracia em seu país. Um exemplo disso é a perseguição aos seus críticos, sejam eles jornalistas ou civis, como o maior jornal da Turquia que foi ocupado por forças de Erdogan, causando uma situação que impossibilita o país de ser uma democracia: não existe imprensa livre e independente, hoje na Turquia. Sendo assim, o continuar da história irá revelar o futuro, mas o que seria realmente bom para o país é algo impossível de definir, porque um golpe militar sempre é um golpe militar, mesmo sendo contra um presidente que prende 2500 juízes em um curto espaço de tempo.

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