Há alguns meses escrevi sobre o estranho embate entre Renan Calheiro e o STF, e como o episódio revela o real sintoma da doença que desola a nação: uma República que existe ela toda para manter o poder do PMDB.

O sinal mais grave da doença, pelo menos enquanto eu escrevo até porque as surpresas se sucedem numa velocidade absurda, veio esta semana com a explosão da denúncia da PGR contra Michel Temer e Aécio Neves. Seus operadores foram flagrados levando malotes de dinheiro não declarado, propina, mas pega mal falar propina quando é pra certos partidos, e ambos foram pegos em declarações criminosas com outro criminoso. Eduardo Cunha, figura obscura que saiu das “trevas” da articulação do PMDB para ser o cara que ia costurar o consenso pra derrubar Dilma Rousseff, porque só dava sem ela lá, foi mais uma vez pivô da crise, já que é o custo do seu silêncio que custava uma mesada para a JBS.

Ainda mais preocupante em todo o episódio é como Joesley Batista confessou candidamente que tem juízes na sua mão e a prisão de um procurador da PGR que meses antes havia ido ao Congresso pontificar contra a corrupção. O deputado Rocha Loures, que só não foi preso como os operadores de propina de Aécio porque tem foro privilegiado, confessou para seu interlocutor como Eliseu Padilha, o Primo, também tem um poder grande sobre a Polícia Federal. O filho de Teori Zavascki já se manifestou e escancarou o quão profunda é esta República do PMDB. 

Atingido no seu coração, com seu ex-candidato a presidência da República exposto como gangster, parece que não restou alternativa ao PSDB que não seja permanecer neste barco que topou entrar quando conspirou contra a ex-presidente. A mesma imprensa que aventou a delação da JBS já parece abrandar o discurso, seguindo o sinal da economia que já assimilou o baque da denúncia e, aqui o sintoma de morte da nossa democracia, entendeu que Temer sabe que não irá cair

Na República do PMDB, não importam coisas como ética e moral. Um Presidente da República ouvir tranquilamente a lista de crimes operados por uma das maiores empresas do Brasil e ainda dar o aval, discreto obviamente, para que tudo continuasse do jeito que estava, é prova da inocência ou da imprecisão de culpa. Na conversa com Joesley, Temer disse com todas as letras que as Cortes Supremas votam politicamente, acabando com um princípio sagrado da justiça, que é o “fiat iustitia et pereat mundus”, e que fundamenta o nosso risível artigo 5º da Constituição “todos são iguais perante a lei”.  Michel Temer não perdeu o grosso de seu apoio no Congresso, e já diz com todas as letras que não dá a mínima para legitimidade popular desde muito tempo. Seu partido controla a maioria dos municípios do país, após as eleições do ano passado, e seu principal sócio, o PSDB, é o segundo partido. Neste cenário de descrédito que se instaurará cada vez mais forte no coração dos brasileiros em relação ao funcionamento da justiça e da democracia, Temer e seu PMDB ficam ainda mais fortes e nossa democracia dá todos os sinais de que está a beira de uma morte horrível. Não nos surpreendamos se não houver eleições em 2018.

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