O rapaz entra na lanchonete e, ao sentar-se, pede um refrigerante para o garçom. O garçom pergunta: “com gelo e limão?”. O rapaz responde: “não, apenas o refrigerante”. Passados alguns minutos, o garçom passa pela mesa novamente e volta a perguntar: “o seu refrigerante com gelo e limão, não é?” O rapaz responde novamente, já impaciente com a demora: “não, apenas o refrigerante”. Mais alguns minutos e o refrigerante chega… com gelo e limão. O caso do rapaz na lanchonete é emblemático num mundo onde ninguém ouve ninguém, ou melhor, ouvem apenas aquilo que estão pré dispostos a ouvir, a ver e a entender.

O historiador Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, em seu livro “Raízes do Brasil” disse que o brasileiro é cordial. Cordial não é, como parece estar no imaginário do brasileiro, sinônimo de bons modos, de educação refinada e boas maneiras no convívio social. Cordial é aquilo que vem do coração, cordial é aquele que age mais pela emoção que pela razão. Se Sérgio Buarque visse os debates que se passam pelas chamadas redes sociais, ficaria assombrado com a precisão dos seus estudos. Os debates parecem seguir a mesma lógica dos confrontos entre Flamengo e Fluminense, Grêmio e Inter, Corinthians e Palmeiras, Bahia e Vitória, Paysandu e Remo. Porém, quando colocados em campo, os argumentos são dignos de Cruzeiro de Araparica e Vitória de Santo Antão, Chapadinha e Ibis, Raposa e Big Star – estes últimos, times de várzea do Itaim Paulista, todos tentando vencer na raça os seus duelos.

Nessa lógica futebolística do “nós” tentando ganhar “deles”, os têm acabado exatamente como um jogo, onde de um lado temos petralhas-esquerdistas-comunistas-comedores-de-criancinhas-defensores-de-bandidos, e do outro coxinhas-direitistas-golpistas-canalhas-entreguistas-vendidos-ao-imperialismo. Todos querendo ser o baluarte da honra, da ética, do combate à corrupção ao mesmo que tentam anular a opinião contrária. Todos querendo ganhar do adversário, aquele que é o representante do mal na Terra, não importando se para isso sejam necessárias ações desonestas como espalhar boatos caluniosos pela internet. Com um agravante: em tempos em que o jornalismo, aquele mesmo que costumava ser o mediador entre os acontecimentos e os cidadãos comuns, vem perdendo espaço para redes sociais regidas por algoritmos que leem a nossa preferência e apontam textos e amigos que concordam com nossos pontos de vista, essas notícias têm ganhado as ruas e o imaginário popular com uma velocidade de dar inveja às(os) senhoras(es) fofoqueiras(os) de qualquer vizinhança, ou condomínio.



Essa bipolarização trouxe consigo tantos conflitos que parece não haver nenhuma maneira de sair dessa dicotomia fraticida. Logo, a pergunta que fica é: com toda essa situação adversa, como incentivar o diálogo saudável num país tão dividido? A resposta mais coerente talvez fosse dizer que devemos parar de agir como torcedores e começarmos a agir como cidadãos. A resposta politicamente correta talvez fosse dizer que devemos incentivar o debate de ideias desde criança, fazendo os mais novos respeitarem seus concordantes e discordantes. No entanto, a resposta certa não é tão simplória. A verdade é que não há fórmulas para responder essa pergunta. Dar a receita aqui seria apenas alimentar a ideia de que eu, sujeito que escreveu este texto, sei a resposta e você, que agora lê o texto que escrevi, não sabe. Seria cair novamente na falsa ideia que move os acalorados debates nas redes onde um lado sabe de tudo e outro não sabe nada.

A única coisa que é possível fazer neste momento é ouvir. Ouvir o que você que está lendo este texto agora tem a dizer. Ouvir o motivo que levou seu vizinho a votar no cara que você mais odeia. Ouvir porque o torcedor do time adversário acha que é campeão mundial, seja a Copa Rio de 1951, seja a Copa Intercontinental, seja com ou sem Libertadores. Ouvir os mais velhos, ouvir os mais novos, ouvir o professor, ouvir o aluno, ouvir os pais, ouvir os filhos, ouvir os que achamos que são corruptos e ouvir os que posam de honestos, enfim, ouvir a todos. No final, se Sérgio Buarque disse que somos cordiais por agirmos mais com o coração que com a razão, talvez tenhamos também que ouvir com o coração – metaforicamente falando -, ouvir com sinceridade e tentar entender sinceramente por que o outro pensa daquela maneira tão diferente da minha, da sua, da dele. Quem sabe ao ouvirmos dessa maneira, os diálogos espinhosos comecem a fluir mais naturalmente sem machucar tantas pessoas? Quem sabe, ao ouvir mais opiniões, comecemos a agir mais racionalmente? Quem sabe, ouvindo os outros, talvez, os outros também nos ouçam? Quem sabe o garçom nos ouça e traga nosso refrigerante sem gelo e limão? E quem sabe, passemos a entender o porquê dele não ter nos ouvido?

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