Com apenas 7 episódios lançados, Westworld já está dando o que falar. Isso porque, como Lost, os mistérios e revelações que vão acontecendo episódio após episódio dão pano para manga para os criadores de teorias de plantão. Tempos paralelos, lugares misteriosos, pessoas que não são o que parecem: a imaginação do público corre solta. Aliás, como a criatividade dos criadores que, até o momento, já confirmaram uma teoria ou outra.

            A minha teoria, porém, é outra; nada mirabolante. Ela consiste no seguinte: a graça toda de Westworld não está em um possível desfecho estapafúrdio, em alguma revelação chocante e desnorteadora. Esses efeitos de narrativa são fascinantes, nos prendem à séries em geral, mas também podem ser decepcionantes, como para muitos foi Lost. A minha teoria é a de que Westworld é muito boa por suas premissas: o trato que é dado a alguns temas clássicos de ficção científica, mitologia, psicanálise, literatura e história.

            Eis alguns deles:

            I. Contraposição entre passado e presente.

            Westworld apresenta o passado como uma fuga a um futuro. Esse futuro é uma distopia, mas uma distopia não-apocalíptica. É a distopia de uma sociedade de controle: as paredes são transparentes, as atividades são monitoradas, as relações são altamente impessoais e civilizadas. Há ordem e eficiência; a expressão dos afetos praticamente sumiu dos rostos das pessoas.

            A fuga disso é um passado em que as pessoas se agridem, se tocam, se olham e se expressam de forma passional e desinibida. Um lugar em que há rincões escondidos, quartos íntimos, pessoas foragidas. A distopia do futuro de Westworld é a de um mundo sem perspectivas de expressão genuína de emoção em que a perspectiva de extrair algum tesão da vida vem de uma imagem verossímil – mas falseada – do passado.

            II. Um lugar de ficção para ser quem se é de verdade.

            Uma sociedade distópica não é necessariamente aquela assolada por uma guerra avassaladora, um ditador sanguinário ou máquinas facínoras. Uma sociedade em que a civilização, a ordem e o trabalho tiram toda a margem de busca autêntica de prazer pode ser igualmente distópica. Como se a incapacidade de cometer desvios imprevistos matasse a vida de fome, por falta de gozo real.

            É para isso que as pessoas vão para o parque Westworld: por trás de toda a vida ordenada dos ricaços, o que vemos são desejos de matar, roubar, estuprar, prostituir, torturar, morrer… (Lembre-se que o slogan de Westworld é “Live without limits”). Ironicamente, eles vão para um mundo de fantasia para serem quem são de verdade. O que nos leva à óbvia conclusão: a vida “real” deles é uma mentira e a “de mentira” é mais verdadeira.

            III. A fuga da repetição como libertação.

            Todos nós já sentimos, em maior ou menor medida, certa angústia de estarmos sendo idiotificados por uma rotina que se repete indefinida e sucessivamente. Na escola, no trabalho, nos afazeres da vida, em padrões de comportamento: o cumprimento maquinal de obrigações e rituais dos quais não se pode fugir dão a impressão – no mais correta – de sermos como máquinas de um trabalho sem fim.

            Essa percepção fica evidente já nos primeiros episódios de Westworld. Os anfitriões, que são os robôs hiper-realistas que vivem no velho oeste fictício, vivem um eterno dia da marmota. Cumprem os mesmos papeis, fazem os mesmos gestos, deixam cair a mesma lata, dão o mesmo tiro, dia após dia. Os problemas começam justamente quando um tipo mínimo de memória começa a surgir em alguns anfitriões, gerando a consciência de que a existência deles não configura uma vida propriamente vivida.

          A sacada dos criadores da série, porém, não parou aí: personagens como William e “O Homem de Preto” mostram que também alguns humanos que visitam o parque buscam brechas na narrativa repetitiva de onde possam encontrar uma experiência original.

**************

            Desse último tema, se desdobra ainda aquele clássico da relação criador-criatura (Deus, Pigmalião, Fausto, Frankestein, Próspero), o conhecimento da verdade como libertação, o dilema do livre-arbítrio como efeito da consciência. E desses, a relação entre pai e filho, choque entre gerações etc etc.

            São muitas camadas e, justamente por transitar entre passado e futuro, entre humano e máquina, entre paixão e contenção, civilização e barbárie, Westworld é tão viciante: os lugares-comuns são usados com perfeição narrativa e técnica.

            Espero que não estraguem tudo nas próximas temporadas.

 

4
0

Escrever artigo sobre este tema

O The Global P. é uma plataforma aberta de debate. Os textos nele postados não refletem a opinião do site. Você tem uma opinião diferente da desse autor? Escreva o seu próprio artigo! Clique aqui e saiba mais.